‘Quadro Negro’: projeto faz homenagem à cultura e resistência negra no Monte Serrat

Desenvolvido desde 2007 o projeto busca, através de pesquisa sobre fatos e personagens que compõe o universo da cultura de resistência, realizar intervenções artísticas em murais que retratam aspectos e histórias que, em sua maioria, estão veladas

Dentro da sala de aula, um quadro negro é sinônimo de janela de conhecimento. Para o Grupo OPNI de São Paulo, quadro negro é um projeto desenvolvido desde 2007 e que busca, através de pesquisa sobre fatos e personagens que compõe o universo da cultura de resistência, realizar intervenções artísticas em murais que retratam aspectos e histórias que, em sua maioria, estão veladas. 

Em Santos, as paredes até então cruas que margeiam a subida das escadarias do Monte Serrat se transforam em um imenso quadro negro, enaltecendo os muitos personagens anônimos que construíram a história do morro. O projeto foi contemplado por uma emenda parlamentar do vereador Ademir Pestana e faz parte das comemorações ao mês da Consciência Negra na cidade.

“A ideia desse projeto nasceu com os Pilares de Santos, que revitalizou o Centro Histórico em 2015. Para esse ano propomos a reflexão sobre o mês da consciência negra e pesquisamos grupos que levam essa estética da periferia, do povo negro ainda marginalizado e que busca oportunidades”, conta o bacharel em comunicação Orlando Rodrigues, um dos entusiastas da iniciativa.

Antes de começar a arte, os integrantes do OPNI fizeram uma imersão na cultura local, visitando quilombos santistas e conhecendo mais profundamente as muitas histórias escondidas nas escadarias do morro.


(Foto: Nair Bueno/Diário do Litoral)

“Queremos contar as histórias veladas. No mural, além dos símbolos costumeiramente associados à cidade como o bonde e a igreja, estamos retratando também o mestre Bahia e a rotina da comunidade”, ressalta Val OPNI, integrante do coletivo que já retratou diversas personalidades negras em muros escolares de São Paulo.

Abreviação de ‘Objetos Pichadores Não Identificados’, o OPNI surgiu da união de 20 jovens moradores do bairro de São Mateus, na periferia de São Paulo. O grupo, pelo caminho natural, passou também a trabalhar com técnicas do grafite e do muralismo.

O mural, finalizado neste final de semana, ficará exposto funcionando ao mesmo tempo como uma homenagem e como um ponto de reflexão sobre os pilares de cultura e resistência que habitam o Monte Serrat. “Quadro negro é uma das únicas expressões alusivas ao povo negro que soa positiva. ‘Denegrir’, ‘tempo escuro’, ‘a coisa está preta’… é sempre negativo. Quando usamos nossa arte para colocar esses personagens anônimos em destaque queremos falar do povo e da região, que mesmo turística sofre com a acessibilidade”, finaliza Val.

De acordo com Orlando, outro mural será desenvolvido na cidade em meados do mês que vem, desta vez em alusão aos Direitos Humanos e idealizado pelo santista Daniel Arts.