Impasse inviabiliza Vila Criativa no Monte Serrat

Igreja não liberou o uso do único terreno disponível no molde proposto.

Um impasse que já se arrasta desde 2014 e atinge mais de 800 crianças que vivem no Monte Serrat segue sem solução: enquanto a Sociedade de Melhoramentos e a Prefeitura de Santos tentam aprovar a construção de uma Vila Criativa no morro, a Diocese de Santos, dona do terreno, não autoriza o uso no molde proposto.

O Diário visitou o espaço no início do mês, na companhia de Rulhis Santana Silva, vice-presidente da Associação de Melhoramentos do bairro. A região onde o grupo pretende instalar o equipamento cultural fica na saída do bondinho, em uma das únicas áreas livres do morro. Duas traves improvisadas foram instaladas no terreno onde as crianças jogam bola.

“O projeto teve todo o cuidado de não construir um prédio maior que a torre da igreja e deixar livre a área onde é feita a festa. Sem contar que a instalação seria muito benéfica para a Diocese, que poderia usar o espaço quando chovesse, por exemplo”, conta Rulhis.

Morador do morro há mais de 20 anos, ele conta que o sonho de ter uma área de lazer vem desde sua infância. “Eu subia pelo meio do mato para chegar no topo e bater uma bola no campinho. Antes a gente brincava bem na frente da igreja mesmo, que era o único lugar disponível. Aí colocaram um corrimão que inviabilizou a brincadeira. As crianças ficam agoniadas em casa, sem ter o que fazer”, conta.

A briga pela implantação do espaço é antiga: desde 2014 a Prefeitura de Santos tenta viabilizar a construção. Diante da indisponibilidade de áreas municipais no morro e da dificuldade de se encontrar terrenos privados nas dimensões necessárias à obra, a Prefeitura buscou o apoio da Diocese de Santos para o uso da área livre no alto do morro, próxima ao Santuário da Padroeira da Cidade.

A pedido do prefeito, a Secretaria de Infraestrutura e Edificações – SIEDI elaborou projeto arquitetônico de centro comunitário e quadra esportiva, que também seriam utilizados para os festejos da Padroeira. Com custo de construção estimado em R$ 1,123 milhão, o equipamento foi projetado nos limites de tamanho autorizados pelo Condepasa em área com patrimônio cultural, como é o caso do Santuário. 

No dia 23 de março deste ano, o projeto foi apresentado, no Gabinete do Prefeito ao bispo diocesano e representantes da diretoria da Sociedade de Melhoramento do Monte Serrat. Na ocasião, o prefeito solicitou a cessão do imóvel para que a Prefeitura pudesse construir o equipamento com recursos do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade), mediante convênio do Município com o Governo do Estado. 

No último dia 16 de abril, a Diocese respondeu o prefeito, por meio de ofício, que estava de acordo com o projeto, mas condicionou a cessão à captação de recursos privados por parte da Prefeitura. Outra exigência foi que o prédio depois de pronto ficasse sob a administração da Diocese. 

Em nota, a Prefeitura afirma que diante da negativa de cessão da área e da dificuldade em captar patrocínios para obra em terreno que não pertence ao Município, o prefeito estuda outras opções para viabilizar a Vila Criativa.

O documento destaca que “A área do Monte Serrat é considerada estratégica pela Prefeitura para receber a Vila  Criativa em razão da alta vulnerabilidade dos ­moradores.  Atualmente, cerca de 800 crianças têm como opção de lazer as atividades na Associação de Capoeira do Monte Serrat, que oferece futebol, sarau, capoeira, sessões de cinema comunitárias e ­reisado”.

Em setembro do ano passado a vereadora Audrey Kleys protocolou um requerimento na Câmara questionando a instalação do equipamento. Em nota, a vereadora destaca que não teve retorno sobre a demanda, que julga ‘urgente e extremamente necessária’. “A questão deve ser analisada como prioridade! A área indicada é propícia para a instalação de um equipamento de lazer, uma vez que não há nenhum espaço deste tipo no Monte Serrat”, finaliza.

Igreja não quer ceder terreno para Prefeitura

Em nota, o padre Claudenil Moraes da Silva, pároco da igreja do Monte Serrat, destaca que a igreja não está de portas fechadas para o projeto, apenas não pretende ceder o terreno para o Poder Público. Por esse motivo, pede a construção pela iniciativa privada.

De acordo com ele, a Diocese de Santos se reuniu com o prefeito Paulo Alexandre Barbosa e representantes da Sociedade Melhoramentos do Monte Serrat para tratar do assunto. Neste encontro, duas formas de construção foram apresentadas.

“De uma primeira maneira, a Igreja doaria o terreno para a Municipalidade, podendo assim utilizar verbas já carimbadas para a construção em tela. A Igreja não acolheu esta primeira forma, uma vez que deixaria de ser a proprietária do imóvel, por cautela, sabendo que o espaço é muito importante para a Igreja e não deve perder a possibilidade de realizar suas obras, ao menos em hipótese, no futuro”, destacou.

De acordo com o padre, a segunda maneira proposta, vista com ‘bons olhos’ pela Igreja, possibilita a captação de verbas de iniciativas privadas, permanecendo o patrimônio da igreja, sendo ela administradora do equipamento. 

“Dessa forma, não seria preciso abrir mão do imóvel em si, tendo a liberdade de realizar seus eventos religiosos quando de grandes concentrações populares, de especial modo, a Festa de Nossa Senhora do Monte Serrat, a Padroeira da Cidade de Santos. Quanto a este caso, foi respondido à Prefeitura de Santos que acolhemos a proposta da Comunidade, apresentada à Prefeitura e à Diocese de Santos”, finaliza.