Bolsão: um oásis para quem vem de fora

Clima e acolhida surpreendem novos Guerreiros Sem Armas.

O londrino Seth Tabatznik se familiariza com as bermudas enquanto segue nesta semana pela Baixada Santista. Nem o verão britânico se aproxima da temperatura de cá. O look teve direito a boné, tênis e terra adubada – afinal, vivencia um mutirão de revitalização de uma praça no Jardim Real, o Bolsão 9 de Cubatão, com a comunidade e os demais Guerreiros Sem Armas (GSA), programa desenvolvido pelo Instituto Elos.

Seth vem de uma das 10 cidades mais ricas do mundo, com o Produto Interno Bruto (PIB) superior ao de todo Estado de São Paulo – respectivamente R$ 2,5 e R$ 2 trilhões em 2016. “Lá as pessoas não dão tanto valor ao que têm. Já aqui aprendemos a olhar não o que falta, mas a abundância do que temos quando somamos esforços”.

Diretor de uma fundação que investe em iniciativas socioambientais, surpreende-se: “Aqui as pessoas se encontram e conversam nas ruas, conhecem os vizinhos”. A solidariedade também foi ressaltada por Joaquim Ulóle. O carpinteiro de Guiné Bissau está um mês longe da mulher e filhos a fim de ser GSA.

“A minha companheira me apoiou, por também ser voluntária” – lá, ela ensina o ofício do artesanato para geração de renda de adultos. Habituado com médias acima de 30ºC, Joaquim enfrenta o frio brasileiro, pois estima replicar a metodologia do curso noutro lado do Atlântico para criar um hospital em Bissau.

SONHOS A ARVORAR

Embasado na Filosofia Elos, o GSA se divide em formações numa casa de retiros no sopé do Morro do Jabaquara e vivências em áreas de maior vulnerabilidade social. A atual e 12ª edição do curso atende o Morro do Cruzeiro, em Santos, e o Jardim Real. No último dia 9, Joaquim se emocionou com o show de talentos na associação do bairro. Conheceu a capoeira.

E, em meio à roda, a sul-africana Musa Gwebani ganhou um berimbau, instrumento que a sua falecida avó ritmava em cerimônias na vila de origem. O artigo em comum nos dois continentes sintetiza as mesmas raízes culturais para Musa: “Até a forma que o nosso cabelo se enrola tem história. E isso é indestrutível”.

Nas tardes da semana seguinte, os cursistas colecionaram as demandas da população. Entre centenas de posts-it de diferentes grafias, uma árvore de cartolina fixada na associação floresce em sonhos distintos: jantar comunitário, iluminação no bairro, ciclovia e centro de artes marciais.

A partir do dia 15, o Elos promoveu um leilão virtual a fim de custear parte dos oásis a serem erguidos coletivamente pelos participantes. Por exemplo, a sergipana Annare Reis fez uma aquarela do Morro do Cruzeiro, onde desde o dia 20 iniciou a intervenção para criar um playground e um espaço de convivência ao lado da Quadra Poliesportiva Milton Ruiz.

O mesmo pleito foi construído coletivamente em paralelo em Cubatão. No domingo, somavam 70 pessoas no mutirão. Pneus viraram bancos coloridos, uma geladeira em biblioteca e mais de 60 garrafas pet em vasos num novo jardim vertical no muro da Rua Acácia dos Santos Pereira. O outro paredão ganhou palavras de “boas vindas”. Em 24 horas, madeiras, telhas e cordas doadas erguiam uma ponte infantil com escorregador para os filhos do bairro.

Parte do material foi dado pelos moradores, outra pela Prefeitura. “Foi o Pedro de Sá (vice-prefeito) quem mediou para o Elos vir ao bairro”, comenta a vendedora Rosemar Vieira que agora pretende que tal área verde ganhe uma academia ao livre para os idosos. A iniciativa a inspirou com os seus vizinhos a criarem o movimento Bolsão em Ação.

“O programa engaja de fato a comunidade, tinha gente que voltou a ser amigo lá no México 70, graças aos mutirões”, comenta o produtor cultural Tiago Pereira, que, no GSA de 2017, participou da criação de playground e horta comunitária em São Vicente. “Existe um senso de pertencimento quando colocamos à mão na massa por um sonho em comum”.

LAÇOS INTERNACIONAIS

Após a celebração que finda a edição na noite do próximo sábado, os bairros continuam a ser acompanhados pelo Instituto Elos com reuniões periódicas até o fim do ano. “Essa construção de laços e vínculos são replicados pelos guerreiros em seus locais de origem”, exemplifica a facilitadora do projeto, Luiza de Sá, com recentes novas áreas de convivência organizadas por ex-cursistas no Peru e na Alemanha.

O intercâmbio com estrangeiros é comum no programa. Dos 45 participantes deste ano, oito são de outros países, como Chile, Cidade do Cabo, Moçambique e Holanda. A versatilidade segue na turma brasileira com 9 estados representados: há desde uma jovem carioca que atua como mecânica automotiva até a mineira que dirige cursos pré-vestibulares.

“O intercâmbio com diferentes pessoas e a experiência no curso permite que mudemos nossa forma de ver o mundo”, diz a capixaba Raquelânia Alves, animada em continuar no projeto Ação Cultivo (ES). O objetivo do GSA é justamente que os participantes se engajem no retorno de suas cidades a fim de efetivar ações que transformem em cooperação a realidade socioambiental e cultural de seus locais.