‘Perdi a visão após um acidente de trabalho’

Aos 29 anos, Edinalcira de Lima sofreu um acidente com cloro e começou a perder a visão gradativamente.

A minha deficiência foi adquirida após um acidente de trabalho. Aos 29 anos, eu era diarista e minha patroa me mandou limpar o teto do banheiro. Inocentemente, peguei a água com sabão e cloro e comecei a limpeza. A vassoura enganchou e um jato de sabão com cloro atingiu meus olhos.

Em um primeiro momento, pensei que era passageiro, lavei os olhos com bastante água, fui para casa e continuei fazendo tudo, achando que não ia acontecer nada.

Seis meses depois, percebia que quando eu lia, as letras ficavam ‘dançando’. Fui ao oftalmologista e a médica falou que meu olho esquerdo estava com uma mancha atrás da pupila. Ela me enviou para São Paulo para fazer tratamento, mas pouco tempo depois engravidei e tive que parar.

Quando retornei ao oftalmo, estava com descolamento de retina e infecção nos olhos. O médico me encaminhou para uma cirurgia a laser e, mesmo com os olhos muito inflamados, a operação foi feita nas duas vistas em um único dia. A partir daí, minha visão começou a diminuir, até que o médico que havia me indicado para fazer a cirurgia falou que eu perderia a visão.

Foi muito difícil ouvir isso. Meu filho mais velho teve que me segurar para que eu não me jogasse no trânsito e cometesse suicídio. Ele olhou para mim e disse: Mãe, você é capaz! Que amor é esse que você sente por nós que quer morrer e nos deixar?

Aquilo me marcou. Eu refleti e continuei a batalha. Meu nome é Edinalcira Rita de Lima, tenho 51 anos, e sou deficiente visual.

Sentia fortes dores de cabeça e foi constatado que eu tinha um tumor. Antes da cirurgia, o médico chamou meu marido e meu filho e disse que eu perderia os movimentos das pernas ou do lado direito do corpo. Graças a Deus isso não aconteceu. Mas a perca da visão foi acelerada.

Após a retirada do tumor, em 2011, fui encaminhada para o Lar das Moças Cegas. Confesso que muito entristecida, desapontada e revoltada. Quando cheguei no Lar, vi que eu era uma fraca, porque na época ainda enxergava vultos e muitos não enxergavam nada. Essas pessoas eram alegres, satisfeitas e caminhavam sozinhas. Então, eu falei: vou ter que encarar.

Quando eu enxergava, eu percebia o mundo de uma outra forma. Muitas vezes era egoísta. Hoje, enxergo com os outros sentidos que me restaram e estou preparada para aceitar a minha deficiência.

O Lar das Moças Cegas é a minha segunda família. Foi o meu levantar, uma nova vida.

Perdi a visão totalmente há uns dois anos e meio. Antes, eu ainda enxergava o claro e o escuro. Agora, nem sei se a luz está acesa ou apagada.

A minha maior dificuldade é sair na rua, tenho muito medo da violência. Medo de encontrar pessoas ruins. Moro na Área Continental de São Vicente e as calçadas são muito irregulares, quem enxerga já foi atropelado, imagina eu sem enxergar.

Venho todos os dias para o Lar. Faço coral, banda, braile, oficina pedagógica, violão, escaleta, flauta, hidroginástica, ioga, dança criativa e teatro.

Aqui eu descobri que sou capaz e que dentro de mim o amor prevalece. Hoje, enxergo com os olhos do coração. O convívio com os outros serviu de experiência e de degrau, fui subindo um a um e com eles aprendi que a gente perde a visão, mas não a vida.