Mulheres querem instalação de uma DDM em Bertioga

Prefeito entregou ao secretário de Segurança Pública do Estado um ofício solicitando a Delegacia da Mulher

Tamara da Silva tem 32 anos, mora em Bertioga, e por quase cinco anos sofreu em um relacionamento abusivo e violento com o pai de seus dois filhos. Ela o conheceu em 2013, em uma igreja. Ao ver o homem louvar a Deus, não imaginou que ele pudesse ser perigoso e achou ter encontrado o amor de sua vida. “Mal sabia que ali começava o enredo do meu maior pesadelo”, diz.

A união durou até junho de 2018, quando Tamara conseguiu, com a ajuda dos filhos pequenos, denunciar o marido após mais uma agressão.

“Ele estava em cima de mim, me dando vários socos no rosto, eu com a cara toda quebrada. Sangue por todo o lado. Minha filha chegou do meu lado com uma faca e deu na minha mão para eu me defender. Ali, naquele momento, o meu mundo caiu”.

A atitude da pequena fez Tamara perceber o mal que aquela relação fazia não só a ela, mas aos filhos, na época com 3 e 1 ano de idade, que acompanhavam de perto as cenas de violência dentro da própria casa.

O desespero da filha foi o empurrão que Tamara precisava para ir até a delegacia de Bertioga denunciar seu agressor. Com o Boletim de Ocorrência em mãos, a separação se consolidou e ela seguiu a vida com a ajuda de familiares. Em seguida, retomou a carreira de fotógrafa – parada desde então porque o marido não gostava que ela tivesse uma profissão.

O ex-companheiro chegou a ameaçá-la após a separação e só parou quando a viu em um novo relacionamento.

A história de Tamara, contada aqui de forma reduzida, pode ser lida na íntegra em uma página no Facebook chamada ‘Violência contra a Mulher – Bertioga’, idealizada por ela meses depois da separação.

“Criei a página para ajudar outras vítimas, mas não esperava que em poucos dias ia receber tantos relatos de mulheres que passaram ou ainda passam exatamente a mesma coisa que eu”, explica.

Em menos de um ano, a página reuniu mais de três mil curtidas, muitas histórias de violência doméstica e reclamações em comum: a falta de uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) na cidade.

FALTA DE ESTRUTURA

Tâmara diz que falta estrutura em Bertioga para atender mulheres que sofrem com a violência doméstica. Não há na cidade nenhuma casa de acolhimento para abrigar as vítimas, nem atendimento especializado. Para levantar a questão, ela deu início a um abaixo-assinado que pede a abertura de uma DDM no município.

O documento pode ser acessado pela plataforma change.org e precisa de mil assinaturas. Até o fechamento desta reportagem, mais de 600 pessoas já tinham assinado.

A reivindicação é tão antiga, que em 2005 o assunto também foi tema de um abaixo-assinado encabeçado pela já falecida Maria Lúcia Prandi, na época deputada e coordenadora da Regional pelo Enfrentamento da Violência contra a Mulher.

Atualmente, das nove cidades da Baixada Santista, apenas Bertioga não tem Delegacia da Mulher. Itanhaém, que até então também não oferecia o serviço, tem previsão de inaugurar sua sede ainda neste ano.

Questionada sobre o assunto, a prefeitura de Bertioga respondeu que em março do ano passado o prefeito Caio Matheus entregou ao Secretário de Segurança Pública do Estado um ofício solicitando a DDM na cidade. Porém, não informou nenhum prazo.

MACHISMO

Além dos relatos de violência, a página reúne reclamações relacionadas ao atendimento dado às mulheres pelos agentes da Delegacia Seccional de Polícia de Bertioga, único equipamento por lá.  

Segundo as vítimas, alguns policiais fazem insinuações machistas e têm posturas que não condizem com a função pública de uma delegacia.

Com a falta de uma DDM, os boletins de ocorrência ainda são feitos no balcão e na presença de muitos homens, o que constrange as vítimas e pode até fazê-las desistir da queixa.

A página publicou também um texto de um jornalista que estava passeando na cidade e teve a bicicleta roubada. Na delegacia, ele presenciou cenas machistas protagonizadas por policiais ao atenderem uma mulher que tinha apanhado do marido.

A reportagem questionou a assessoria da Polícia Civil sobre o atendimento prestado pela unidade, mas não obteve resposta.