Patrícia Araújo trabalha como técnica de enfermagem há nove anos em uma unidade hospitalar, em Santos. No plantão da madrugada, ela entra às 19h e sai de manhã, às 7h. Descansa por 36 horas para poder voltar a rotina de cuidar de quem está enfermo momentaneamente.
Com tanto tempo dentro de um hospital, Patrícia diz que já se acostumou com o ambiente hospitalar, mas que ultimamente as coisas mudaram.
“O clima está mais tenso, os funcionários sentem um medo que antes não existia. Estão todos com expressões mais sérias e até um psicólogo foi colocado à disposição da equipe para quem quiser conversar”, conta.
O responsável por pesar o ambiente é invisível aos olhos, mas perceptível para o mundo inteiro, principalmente para quem está na linha de frente do combate do novo coronavírus: os profissionais da saúde.
“Eu fico triste quando vejo tanta gente na rua vivendo a vida como se nada tivesse acontecendo. As pessoas não têm ideia de como as UTIs estão lotando a cada plantão e de como quem trabalha em hospital está sendo afetado pela doença, ou pelo medo de se infectar por ela”.
A própria Patrícia passou por um susto na última semana. Com sintomas de gripe, foi afastada por sete dias até que o resultado do exame que diria se era ou não Covid-19 saísse. Deu negativo e ela voltou a trabalhar.
A enfermeira explica que ficou aliviada por ser só uma gripe, mas ao mesmo tempo voltou o receio de ser infectada pelo coronavírus e os sintomas serem piores.
Ela mora com a filha, mas desde que a epidemia chegou na região, deixou a pequena com o pai para evitar qualquer risco.
“Essa é a pior parte, chegar em casa e não poder ficar com ela”, declara.
COLEGAS INFECTADOS.
Um dos primeiros casos de coronavírus em funcionários do hospital onde Patrícia trabalha é de uma enfermeira que está grávida de sete meses. A mulher, que tem problemas respiratórios, manifestou os sintomas mais graves da doença e poucos dias depois, estava entubada. Até o momento, a situação dela permanece a mesma.
Uma outra enfermeira, que preferiu não se identificar, afirma que a nova rotina é muito difícil e de plantão em plantão, a unidade recebe mais pessoas doentes. De acordo com ela, os pacientes que chegam têm idades e condições diferentes e vão de jovens a idosos.
“Acredito que todos nós, profissionais da saúde, vamos nos infectar porque temos contato direto com os infectados. Só não sabemos se os sintomas serão fortes. Meu maior medo é transmitir para meus entes queridos. Mantenho a fé que isso vai passar”.
