Artigo – Roteiristas de 2020

A tragédia que vivemos hoje é fruto de uma cultura de exploração sem limites da natureza

Por Francisco Marcelino

Já é lugar-comum da pandemia dizer que o roteirista de 2020 exagerou demais. Com isso, nós humanos nos abstemos de reconhecer que nós mesmos estávamos escrevendo essa história. 

A tragédia que vivemos hoje é fruto de uma cultura de exploração sem limites da natureza: todos os anos, consumimos mais recursos que o planeta pode nos dar. Assim, ano a ano, esgotamos um rio na Europa ou na África, exterminamos com a fauna e a flora, derretemos geleiras e o outrora permanentemente congelado solo do Ártico, queimamos florestas em cada ponto cardeal deste planeta. É verdade que num ponto cardeal específico, queimam-se mais florestas. Nossa gana exploratória se voltou até para a própria espécie. Durante séculos, navios singraram (e sangraram) o Atlântico traficando africanos para as colônias europeias nas Américas. Ainda hoje o capitalismo selvagem se aproveita de mão-de-obra infantil ou de pessoas em condições precárias.

Quando um recurso se esgota, partimos atrás de outros ainda não explorados como terras raras ou carne de avestruz, canguru ou morcego. 

A situação do planeta é catastrófica. Mesmo que você leitor e eu não sejamos cientistas, conseguimos intuir que o aquecimento médio de dois graus Celsius neste século — a meta do Acordo de Paris — já será um desastre. Sendo uma média, também podemos prever que alguns locais se tornarão muito mais quentes do que outros e inabitáveis para o ser humano. Já existem áreas inabitáveis no nosso planeta, como o Himalaia ou os arredores da usina de Chernobyl, na Ucrânia, mas os novos locais serão maiores e poderão estar encravados em territórios de alta densidade demográfica.

Isso levará a ondas maciças de migrações, fome e disputa por água potável. No meio de tudo isso, certamente, novas pandemias aparecerão, com a dispersão de vírus e outras doenças que estavam restritas a um canto do planeta. Nesse roteiro de filme distópico, mas provável, embarcar num foguete para Marte será a única solução. Claro, se você tiver um cofre-forte como o do Tio Patinhas para pagar a passagem. 

A boa notícia é que o roteiro não é essencialmente o filme. Um diretor sempre pode mudar uma cena ou outra no momento de filmar. O elenco também pode contribuir, alterando diálogos, cortando ou acrescentando falas. Sem contar que problemas de produção podem mudar diametralmente um filme. Ou seja, mesmo que o roteirista de 2020 tenha exagerado nas tintas, ainda é possível mudar esse filme. Algumas ações simples já seriam suficientes. Será que precisamos consumir tanta proteína? Será que dá para trabalhar de casa ou, então, ir de bicicleta para o escritório? Precisamos mesmo de 20, 30 pares de sapato?

Como diria o outro, sem solução mesmo só a morte.

Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professor