Ao contrário da competição brasileira, a latina do 41º Festival de Gramado deve ter sido bem fácil para o júri. O colombiano Cazando Luciernagas, exibido na última noite, sexta-feira, era realmente o melhor título da seleção e nem deve ter havido muita discussão para atribuir o Kikito ao filme do diretor Roberto Flores Prieto. Já a mostra brasileira deve ter animado discussões acaloradas e o júri premiou Tatuagem, de Hilton Lacerda, como melhor filme.
Irandhir Santos foi melhor ator, mas Hilton viu o Kikito de direção ser atribuído a dupla Andradina Azevedo e Dida Andrade, por A Bruta Flor do Querer. São filmes gêmeos e, de certa forma, foram os escândalos, no plural, de Gramado em 2013, Dois filmes que discutem a criação, um mais metalinguístico (A Bruta Flor) e ambos marcados por cenas de sexo muito forte. A diferença é que o sexo de um é homo e o do outro é hetero, embora no debate, falando da perfeita união entre ambos, Andradina Azevedo e Dida Andrade tenham dito que o casamento deles é puramente platônico.

O júri apostou no ousado, e isso é bom, mas suas escolhas vão dar o que falar. Por melhor ator que seja Irandhir Santos, não foi o melhor do festival. E atribuir um Kikito póstumo, de coadjuvante, para Walmor Chagas — por A Coleção Invisível — foi uma facilidade e uma covardia, além de injustiça com os estreantes do filme pernambucano, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia são melhores que Irandhir Santos (neste filme, ao menos) e o júri teria ousado mais destacando o trabalho dos garotos, em vez do prêmio para o grande Walmor. Ele não apenas não precisa mais do prêmio — não precisaria nem em vida — como é bom no padrão de qualidade que sempre foi o seu, sem a visceralidade dos papéis de Jesuíta e Rodrigo.
Sem cinismo algum, pode-se dizer que as discussões em Gramado foram melhores que os filmes. O próprio Tatuagem, por discutível que seja, possui sua importância e a história de uma companhia transgressora (dos costumes e da política) no recife, durante os duros anos da repressão do regime militar, levanta questões muito interessantes. O líder da companhia que se apresenta no espaço Chão de Estrelas é um gay que teve um filho. Ele se envolve com um soldadinho sob os olhos do filho, que acompanha a ligação e tem a frase final sobre ela, no último diálogo. O menino talvez seja o melhor personagem do filme e, embora Tatuagem não seja autobiográfico, tem muito do diretor.
Tatuagem sugere uma mistura de A Febre do Rato, de Claudio Assis, que Hilton Lacerda escreveu, com Dzi Croquettes, o documentário sobre o grupo que afrontou a ditadura com seu comportamento libertário. Dzi foi feito — em parceria — por e Raphael Alvarez e Tatiana Issa, filha de um dos Dzi. É mais ou menos como se o menino de Tatuagem fizesse anos mais tarde, já adulto, um documentário sobre seu pai. A transgressão jovem de Tatuagem e A Bruta Flor foi uma aposta do júri, com prejuízo para obras como Os Amigos, de Lina Chamie, e O Primeiro Dia de Um ano Qualquer, de Domingos Oliveira.
É curioso que tanto Tatuagem e A Bruta Flor quanto O Primeiro Dia e Os Amigos são filmes irmãos, os últimos discutindo relações na perspectiva de uma geração mais madura. São também filmes mais clássicos, e o de Domingos é melhor. Sem que se possa dizer que Os Amigos é ruim, pois não é, não sustentou a expectativa dos que esperavam outro grande filme da diretora.
Enfim, o prêmio de direção para Andradina Azevedo e Dida Andrade deve ter ido além dos sonhos da dupla. Nas pegadas de François Truffaut, que fazia filmes para dormir com suas atrizes, Dida virou o incubo das feministas ao declarar — um diálogo do filme — que também virou diretor para pegar mulheres. Elas o detestaram por isso, e não se preocuparam como o filme é belo na sua discussão de temas como criação, rejeição e reinvenção. Os jovens do filme, interpretados pelos diretores, são cafajestes? São o espelho de sua geração e, a propósito, a cena final é, inconscientemente, como disse Dida, uma homenagem ao clássico de Ruy Guerra.
