‘Importante não é objeto, é o sentimental’, lamenta vítima de incêndio na Vila Gilda

Moradores do Caminho São José, na maior favela de palafitas do Brasil, tentam se reerguer após incêndio que destruiu cerca de 150 moradias em Santos

O número de desabrigados é muito maior do que o número de moradias destruídas

O número de desabrigados é muito maior do que o número de moradias destruídas | Nair Bueno/DL

Mesmo diante da tragédia e da tristeza, é possível encontrar esperança nas palavras do soldador Aparecido Santos, de 39 anos. “Eu vou reconstruir tudo novamente. Pode acreditar”, garantiu o morador do Dique da Vila Gilda, desde 2007, que só conseguiu recuperar a geladeira nova, documentos e algumas peças de roupa. “Importante mesmo não é objeto, é o sentimental”, pondera.

O incêndio que, segundo os moradores, começou por volta das 21h30 desta segunda-feira (4), se alastrou rapidamente pelas palafitas do Caminho São José, próximo ao beco 52. Aparecido dá detalhes do que consegue lembrar sobre o acidente. “Não tenho muita noção do que aconteceu. Muita emoção na hora, todo mundo nervoso, tentando tirar as coisas. Não sabemos o que causou o incêndio, cada um fala uma coisa diferente. Foi impressionante que ele (o fogo) veio do fundo, da esquerda e, depois, foi para o lado direito comendo tudo. Em 45 minutos o fogo acabou com 150 casas”, conta.

Segundo Elizabeth Ferreira Amorim, 53 anos, explicou o que pode ter sido a razão do incêndio. “O fogo veio do poste e se alastrou muito rápido pelo fio por causa do calor”, comenta a voluntária e também uma das desalojadas por conta do acidente. Elizabeth, que mora no bairro há 45 anos, foi quem guiou a reportagem do Diário do Litoral ao local da tragédia. Esta já é a segunda vez que ela assiste um incêndio como este. “O incêndio começou por volta de 21h20, quando a gente começou a dar vista ao fogo alto. O Corpo de Bombeiros chegou com alguns carros, mas com pouca água ou sem nenhuma água, aí se alastrou mais”.

O número de desabrigados é muito maior do que o número de moradias destruídas. “Mais ou menos, 150 moradias, apesar de falarem 100. A quantidade de famílias é ainda maior já que se multiplica, dentro de cada barraco pode ter até nove pessoas”, complementa a voluntária, que ajuda nas doações às famílias juntamente com uma comunidade religiosa do bairro. “Neste primeiro momento, a gente acolheu essas pessoas tirando elas da imagem de terror. Depois, estamos trazendo para elas alimentos, roupas e até mesmo uma oração para ajudar nesse momento difícil”.

Tatiane Soares da Silva, 39 anos, não perdeu tudo, mas precisou ser retirada de onde morava. “Eu não perdi, porque eu moro em casa de bloco alugada. Hoje, eu fui lá, mas com a quentura, ela rachou. Está muito quente a casa porque foi muito perto e está estralando muito ainda”, contou a diarista que mora com a filha e estava dormindo no momento do acidente. “Eu acordei com o povo gritando que estava pegando fogo. Quando eu vi o fogo já estava bem alto e pegando muitos barracos”, conta.

O mesmo desespero viveu a faxineira Ingrid dos Santos, que tinha acabado de arrumar a moradia para morar com os 3 filhos após a separação. Esta situação é a que faz aumentar a angústia, já que ela não sabe como ficará o cadastro habitacional. “Como eu estava casada com o pai do meu filho, chegou a passar a Cohab. Agora não sei porque o dele estava em análise e está no nome do meu ex-marido. Agora dependendo como for, ele falou que fica em algum lugar, com algum parente e eu vou para o apartamento com as crianças”, explica, esperando receber auxílio da Prefeitura Municipal.

Ingrid, que tem 28 anos, saiu de casa somente com a roupa do corpo, o filho mais novo no colo e uma sacola de documentos, que ela já deixou separada em local específico por conta de outras experiências com incêndio que já viveu. Ela mora no Dique da Vila Gilda há 3 anos.

Cerca de 12 moradores estão abrigados no Centro Esportivo e Recreativo da Zona Noroeste. O restante conseguiram se abrigar junto com amigos e familiares. No local, o sentimento é de tristeza e espera. “Se o prefeito fizesse alguma melhoria para o povo. Dá para fazer, só que eles não se importam com a gente.

Só quando precisa de voto, aí eles se importam e vem aqui, mas depois viram as costas. Pode ver, lá na Ponta da Praia tá melhorando e a favela como tá? Só crescendo. Infelizmente, é isso. Agora a gente vai ter que ficar esperando para ver se vai liberar o apartamento e ficar esperando o governador para entregar a chave”, finaliza Aparecido. 

“ Não existe cidade pronta”, afirma prefeito Rogério Santos

Em entrevista coletiva no Centro de Controle Operacional (CCO) da Prefeitura de Santos, o prefeito Rogério Santos garantiu que, além de cuidar para que estas famílias recebam todo o apoio necessário neste momento, elas também estão inscritas em programas habitacionais criados especificamente para o bairro.

“Todas as famílias que estão lá estão inscritas em programas habitacionais e, é lógico, a casa própria depende de recursos. A Prefeitura acabou de entregar 1.120 unidades habitacionais, justamente para as pessoas que moram no Dique da Vila Gilda. Então 1.120 famílias já estão sendo remanejadas para o Tancredo Neves. Já estão em obras, juntamente com o Governo do Estado, 1.014 unidades habitacionais voltadas para a população que mora em palafitas. Então, 2.134 unidades serão entregues em dois anos”, explicou o chefe do Executivo.

Segundo os próprios moradores da área atingida, alguns já compravam móveis para ocupar as moradias que estavam aguardando. “Não deu tempo, tudo foi consumido pelo fogo”, lamentou a voluntária Elizabeth Ferreira Amorim.

Além das moradias que serão entregues em dois anos, o prefeito planeja colocar em prática o projeto Parque Palafitas, que irá atuar no congelamento destas áreas e ocupar o bairro de forma ordenada.

“A partir do momento que a gente ocupa a área com palafitas estruturadas, estaqueadas, nós vamos ordenar todo o território, evitando novas invasões. Essa é a forma definitiva, nós sabemos a dificuldade que o público em todos os locais têm para manter os espaços organizados sem novas invasões. Projeto Palafitas é um projeto inovador. O governador Tarcísio de Freitas já avisou que vai participar e vamos fazer esse projeto”, garante.