Amazônia pode colapsar em 30 anos sem ações urgentes, alerta especialista

Climatologista da USP defende bioeconomia e restauração florestal como saída urgente para a Amazônia e destaca papel do Brasil na COP30

Especialista alerta que Amazônia pode entrar em colapso climático em 30 anos sem ação

Especialista alerta que Amazônia pode entrar em colapso climático em 30 anos sem ação | Valter Campanato/Agência Brasil

A Amazônia vive um momento crítico. O climatologista Carlos Nobre, pesquisador da USP com mais de 40 anos de estudos sobre o bioma, alerta que a estação seca na região já se prolonga em até cinco meses em algumas áreas.

Com o aquecimento global ultrapassando 1,5°C em 2025, Nobre adverte que a floresta pode se transformar em savana em até 30 anos caso não sejam tomadas medidas urgentes. Para ele, a bioeconomia baseada na sociobiodiversidade é a única alternativa capaz de conciliar preservação ambiental, desenvolvimento econômico e geração de emprego.

O cientista lembra que a Amazônia já foi um dos maiores sumidouros de carbono do planeta, mas atualmente absorve menos de 20% do que capturava décadas atrás. O prolongamento da estação seca, somado ao desmatamento e às queimadas, compromete a capacidade de regeneração natural do ecossistema.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que 85% dos incêndios na região têm origem humana, incluindo ações de crime organizado, que utilizam o fogo para abrir áreas de exploração ilegal.

Bioeconomia como solução estratégica

Para Nobre, a bioeconomia surge como caminho viável para salvar a Amazônia. O Brasil abriga cerca de 20% das espécies conhecidas do planeta, mas menos de 0,5% dessa riqueza é explorada economicamente.

A utilização sustentável de produtos florestais, como óleos, frutos, fibras e cosméticos, pode gerar renda e empregos para comunidades locais e fortalecer populações indígenas e tradicionais, que possuem conhecimento ancestral essencial para a preservação da biodiversidade.

A restauração de áreas degradadas é outro ponto central da estratégia. Projetos como o Arco da Restauração, lançado na COP28, têm potencial para recuperar 240 mil km² da Amazônia, combinando incentivos financeiros, crédito com juros baixos e apoio a práticas sustentáveis.

Nobre destaca que recuperar florestas é economicamente mais vantajoso do que atividades tradicionais, como soja e pecuária, mas a iniciativa enfrenta resistência de setores do agronegócio.

Impactos globais e regionais do desmatamento

O risco de colapso da Amazônia não se limita à região. A degradação do bioma influencia diretamente o clima global, a regulação hídrica, a fertilidade do solo e a produção agrícola. Regiões como o Cerrado podem se tornar semiáridas, enquanto a Caatinga corre risco de desertificação.

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O aquecimento global e as mudanças no regime de chuvas impactam a produtividade agrícola, pilar da economia nacional, e aumentam a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos.

Nobre alerta que a ação humana acelerou processos naturais que antes levavam milhares de anos. Se a tendência atual se mantiver, grandes áreas da Amazônia podem alcançar um ponto de inflexão, transformando-se em savana degradada e comprometendo a estabilidade climática do planeta.

COP30: oportunidade para liderança brasileira

A Conferência do Clima de 2025, a COP30, será realizada em Belém, no coração da Amazônia. Para Nobre, o evento é crucial para o Brasil assumir liderança global no enfrentamento das mudanças climáticas.

O cientista elogia a meta nacional de emissões líquidas zero até 2040, dez anos antes do previsto, e defende que o país use o encontro para consolidar a bioeconomia e expandir a restauração florestal.

Ele destaca que o Brasil pode transformar a crise em oportunidade de desenvolvimento sustentável. Projetos de bioeconomia e restauração florestal não apenas mitigam o aquecimento global, mas também atraem investimentos, geram renda e fortalecem comunidades locais.

O cientista ressalta que parcerias internacionais e financiamento global são essenciais, especialmente considerando que países desenvolvidos são responsáveis pela maior parte das emissões históricas.

Resistência e desafios à mudança

Apesar do potencial econômico e ambiental da bioeconomia, Nobre aponta obstáculos significativos. O agronegócio ainda vê a floresta como um entrave ao crescimento econômico e resiste a práticas mais sustentáveis.

Globalmente, a lentidão na redução de emissões de combustíveis fósseis também é um problema, e as metas climáticas internacionais continuam insuficientes para evitar que o aquecimento ultrapasse 2°C.

Fungo da Amazônia pode ser arma fundamental para combate a problema global

O climatologista alerta que, sem ação coordenada, a Amazônia corre risco de atingir um ponto de não retorno. O envolvimento de governos, setor privado, universidades e comunidades locais é fundamental para garantir que a floresta continue funcionando como regulador climático global e fonte de biodiversidade.

O futuro da Amazônia depende da bioeconomia

Para Nobre, a Amazônia não é apenas essencial para o Brasil, mas para a estabilidade climática global. A bioeconomia oferece uma alternativa prática e lucrativa, que combina conservação ambiental, geração de empregos e desenvolvimento econômico. Investir em educação, tecnologia e inovação é fundamental para escalar projetos de restauração e tornar o modelo sustentável a longo prazo.

A COP30 será, segundo ele, um teste decisivo para a capacidade do Brasil de liderar a agenda climática global. Com ações coordenadas e investimento em bioeconomia, o país pode transformar a crise da Amazônia em uma oportunidade de desenvolvimento sustentável e referência mundial na preservação de florestas tropicais.