Nas últimas semanas, um termo bastante usado no Ocidente ganhou força no Nepal e se tornou símbolo da indignação popular: ‘nepokids’ ou ‘nepo babys’, abreviação de nepotismo.
A expressão designa filhos de pessoas poderosas — sejam celebridades, empresários ou políticos — que, graças às conexões familiares, desfrutam de privilégios e oportunidades inacessíveis à maioria.
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O estopim da revolta
Fotografias e vídeos que mostrariam jovens da elite política nepalesa em situações de luxo — roupas de grife, férias em destinos caros e carros importados — viralizaram nas redes sociais, com a hashtag #nepokids.
Em contrapartida, usuários passaram a contrapor essas imagens à dura realidade de grande parte da população: no Nepal, um em cada quatro habitantes vive abaixo da linha de pobreza nacional.
Entre os conteúdos mais compartilhados, destacam-se fotos atribuídas ao filho de um ministro, posando com caixas da Louis Vuitton e Cartier organizadas como uma árvore de Natal, e vídeos de herdeiros de juízes e políticos jantando em restaurantes sofisticados.
Ainda que não esteja claro se todas as imagens são reais, elas se tornaram símbolo de um mal-estar antigo: a percepção de corrupção e desigualdade sistêmica.
O paralelo com o Ocidente
O uso da expressão nepo kids no Nepal tem relação direta com o conceito já popularizado em países ocidentais. Lá, o termo nepo baby ganhou notoriedade para criticar filhos de artistas e celebridades que construíram carreiras no cinema, música ou moda em grande parte graças aos laços familiares, e não apenas ao talento.
No caso do Nepal, a crítica é ainda mais contundente: a ostentação dos chamados nepokids passou a representar um sistema político marcado por corrupção e privilégios, em contraste gritante com a vida de milhões de cidadãos.
A indignação que virou protesto
Segundo Raqib Naik, diretor do Center for the Study of Organized Hate, o contraste entre ‘o privilégio da elite e as dificuldades do dia a dia tocou profundamente a geração Z’ e acabou se transformando em uma das principais narrativas dos protestos.
A proibição temporária das redes sociais pelo governo apenas ampliou a revolta, já que foi vista como uma tentativa de silenciar críticas. Nas ruas, a indignação não se limitou às imagens: escândalos de corrupção envolvendo o desvio de US$ 71 milhões na construção de um aeroporto em Pokhara e denúncias de venda de falsas promessas de refúgio a jovens que buscavam trabalho no exterior reforçaram o sentimento de injustiça.
Nepotismo, desigualdade e futuro
O Nepal está classificado pela Transparência Internacional como um dos países mais corruptos da Ásia. Para muitos jovens, a ascensão e o luxo dos nepokids ilustram a forma como o poder político e econômico se concentra em poucas famílias, deixando a maioria da população sem perspectivas.
No fim, a hashtag que começou como crítica nas redes se tornou combustível para um movimento social mais amplo.
Ao dar visibilidade ao termo nepokids, os manifestantes apontam não apenas o privilégio da elite, mas também a urgência de transformar um sistema que, segundo eles, enriquece poucos às custas de muitos.
