Uma pesquisa internacional revelou uma queda preocupante na expectativa de vida dos golfinhos-comuns que habitam o Atlântico Norte. As fêmeas da espécie estão morrendo cerca de sete anos antes do esperado, o que pode ser um sinal de colapso iminente em um dos ecossistemas marinhos mais ricos do planeta.
A investigação aponta a pesca intensiva como principal causa do declínio, mas os cientistas alertam que os impactos do aquecimento global também estão acelerando o problema, e as consequências podem se estender a toda a cadeia alimentar oceânica.
Golfinhos morrendo mais cedo: um alerta das águas frias da Europa
Pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, descobriram que os golfinhos-comuns (Delphinus delphis) que vivem no Golfo da Biscaia, próximo à costa da França, estão morrendo sete anos antes do esperado. A expectativa de vida das fêmeas caiu de 24 para 17 anos entre 1997 e 2019.
O estudo, publicado na revista Conservation Letters, indica que essa redução drástica pode desestabilizar toda a população da espécie.
A equipe de cientistas analisou dentes de golfinhos encalhados ao longo de mais de duas décadas para determinar suas idades e identificar tendências populacionais. A taxa de crescimento, que deveria ser de 4% ao ano, caiu para apenas 1,6%, o que indica risco real de colapso demográfico.
Segundo os pesquisadores, se essa curva continuar, o número total de indivíduos pode começar a cair de forma irreversível.
“Há uma necessidade urgente de gerenciar melhor as populações de golfinhos-comuns”, alerta o biólogo Étienne Rouby, um dos autores do estudo, em entrevista à revista Galileu.
“Esses animais têm papel essencial no equilíbrio ecológico, e sua perda pode afetar toda a teia alimentar marinha”, afirma.
Um mar repleto de redes: quando a pesca ameaça a vida marinha
O Golfo da Biscaia é um ponto estratégico para a sobrevivência dos golfinhos no inverno, por abrigar abundância de peixes como sardinhas e anchovas. Mas também é uma das regiões mais exploradas pela pesca comercial na Europa.
Embora os golfinhos não sejam caçados, milhares deles morrem anualmente presos em redes destinadas a outras espécies, um fenômeno conhecido como “captura acidental”.
Estudos anteriores já indicavam que cerca de 7 mil golfinhos foram mortos acidentalmente em 2021, de uma população estimada em 180 mil indivíduos. O número parece pequeno à primeira vista, mas a baixa taxa de reprodução da espécie faz com que cada perda pese enormemente na recuperação populacional.
O problema é agravado por políticas de monitoramento ineficazes. A contagem feita por navios e aviões tende a mascarar reduções graduais. “Por serem animais de vida longa, as mudanças populacionais demoram a aparecer nas estatísticas”, explica Rouby. “Quando percebemos o impacto, já é tarde demais.”
O desafio das políticas de proteção e o papel humano
Em 2024, o governo francês proibiu temporariamente a pesca no Golfo da Biscaia durante o mês de janeiro, período em que os golfinhos costumam se aproximar da costa. Embora a medida tenha ajudado a reduzir capturas acidentais, especialistas acreditam que ela é insuficiente.
“Esses animais nem sempre chegam na mesma época todos os anos”, diz Rouby. “Precisamos de políticas adaptáveis e coordenadas internacionalmente.” Além dos golfinhos-comuns, outras espécies do Atlântico Norte, como a toninha e o golfinho-roaz, também mostram sinais de declínio.
Isso preocupa os cientistas, pois indica que o problema pode ser mais amplo do que se imaginava, um reflexo direto da pressão humana sobre os oceanos. Os pesquisadores defendem a adoção de leis semelhantes à Lei de Proteção de Mamíferos Marinhos dos EUA, que impõe limites rígidos à captura acidental.
Eles também pedem o fortalecimento de programas de monitoramento, com dados mais detalhados sobre mortalidade, migração e reprodução das espécies marinhas europeias.
Vjea também que uma cidade do litoral virou ‘point’ para shows de baleias e golfinhos no inverno.
Golfinhos: os guardiões invisíveis do oceanos
Os golfinhos são considerados predadores-chave nos ecossistemas marinhos. Ao controlar populações de peixes menores, eles ajudam a manter o equilíbrio ecológico e a garantir a sobrevivência de outras espécies.
A ausência desses animais pode causar um efeito em cascata: o aumento descontrolado de presas que, por sua vez, consomem mais plâncton e vegetação, afetando toda a cadeia alimentar.
“Sem os golfinhos, os oceanos se tornam ecossistemas desequilibrados e vulneráveis”, explica Rouby. “A perda desses predadores é um sinal claro de que algo está profundamente errado.”
