No canto esquerdo da famosa praia do Sununga, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, existe uma gruta de fácil acesso, alcançada por qualquer pessoa a pé. De lá escorre uma água considerada abençoada, com supostos poderes milagrosos.
Diz a tradição que ela foi benzida por um padre jesuíta e, por isso, o lugar passou a ser conhecido como “Gruta que Chora”.
Segundo a lenda, há muitos e muitos anos, essa gruta — hoje ponto turístico visitado diariamente — era o lar de um terrível monstro marinho. A criatura, de mais de dois metros de altura, garras afiadas e reflexo impecável, espalhava pânico entre todos que se aproximavam dali.
Seu alvo preferido, contam os antigos, eram os barcos de pesca e suas tripulações. Sem piedade e com extrema astúcia, o monstro capturava os pescadores e os arrastava para dentro da gruta, onde arrancava a pele de suas vítimas antes de devorá-las vivas.
Sem a tecnologia de rastreamento e comunicação dos dias de hoje, as pessoas simplesmente desapareciam. As famílias ficavam sem respostas, e ninguém imaginava que, naquele cenário tão bonito e aparentemente tranquilo, pudesse viver uma criatura tão cruel.
A história muda em um fim de tarde chuvoso, com trovões ecoando pelo mar. Naquele dia, um pescador conseguiu escapar das garras da besta e correu para pedir ajuda. Foi assim que a lenda do monstro devorador de humanos passou a ser associada aos inúmeros desaparecimentos na região.
O episódio chegou aos ouvidos do padre jesuíta José de Anchieta, um dos fundadores das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Convicto de que se tratava de uma manifestação do demônio, ele decidiu enfrentar a criatura. Anchieta foi até a gruta e, sem hesitar, lançou água benta sobre o monstro. A fera, tomada pela dor, soltou um grunhido assustador e se atirou desesperada no mar, desaparecendo para sempre.
Depois disso, o padre benzeu toda a gruta e declarou que, dali em diante, a água que pingasse ali seria sagrada e protegeria o lugar do retorno da criatura. Desde então, diz a tradição, o monstro nunca mais foi visto.
E pinga mesmo
Quem visita hoje a Gruta que Chora, além de garantir belas fotos, percebe que a água realmente pinga em boa quantidade da parte superior da entrada, especialmente quando as ondas do mar batem com mais força e provocam microvibrações em sua estrutura. A explicação científica é simples: acima da gruta há uma nascente, e a água encontra passagem pelas frestas da rocha, umedecendo-a constantemente.
Mesmo assim, muitos preferem ignorar a versão técnica. Fieis e curiosos vão até o local para tocar na água abençoada por José de Anchieta, pedir graças e até beber alguns goles, acreditando que ela ajuda a tratar problemas digestivos.
Há ainda quem leve pequenos frascos para casa, levando consigo um pouco da chamada água sagrada.
Mas a pergunta continua ecoando entre moradores e visitantes: e o monstro, por onde andará?
