Recentemente, o ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante uma audiência judicial, que sofreu um “surto” motivado por paranoia e confusão mental, supostamente desencadeadas por medicamentos comuns para soluço e vômito.
A declaração gerou forte polêmica no cenário político brasileiro e levantou dúvidas tanto entre a população quanto na imprensa especializada.
Para esclarecer o que realmente está em jogo em situações como essa, o médico Thyago Henrique, pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein, explica que existe uma definição clínica específica para o chamado “surto psiquiátrico” — e que ela está muito distante do uso popular do termo.
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Segundo ele, um surto psiquiátrico é uma alteração aguda no funcionamento mental, marcada pela perda de contato com a realidade. “Trata-se de um episódio psicótico, caracterizado por delírios, alucinações e comportamento desorganizado. No dia a dia, qualquer explosão emocional vira ‘surto’, mas, na psiquiatria, estamos falando de algo mais grave, que pode comprometer a segurança do indivíduo”, afirma.
Remédios comuns podem causar paranoia?
De acordo com o especialista, embora seja raro, alguns medicamentos usados para tratar sintomas físicos podem desencadear confusão, paranoia ou agitação — especialmente em pessoas mais sensíveis, em doses altas ou quando combinados com outros fármacos.
“Há remédios para náusea, tontura ou soluço que atuam no sistema nervoso central e podem provocar alterações cognitivas ou sintomas parecidos com delírios. Isso não é comum, mas está descrito na literatura. Por isso, automedicação nunca é uma boa ideia”, alerta.
A confusão entre efeitos adversos de medicamentos e sintomas psiquiátricos pode atrasar o diagnóstico. Enquanto um surto psicótico típico envolve delírios estruturados e perda de crítica sobre a realidade, reações medicamentosas tendem a causar sonolência, desorientação e rebaixamento de consciência — sintomas geralmente flutuantes e reversíveis.
“A diferença pode ser sutil, mas é fundamental. Só uma avaliação médica criteriosa consegue estabelecer o diagnóstico correto”, reforça.
Diagnósticos como metáfora: um risco invisível
Outro ponto destacado pelo psiquiatra é a banalização de termos como “surto”, “bipolar” ou “depressão” em contextos políticos, judiciais ou midiáticos.
“Quando esses diagnósticos viram metáfora, seus significados clínicos se perdem e os estigmas aumentam. Isso prejudica quem realmente convive com transtornos mentais e enfraquece o entendimento da população”, afirma.
Para ele, figuras públicas precisam ter responsabilidade redobrada ao falar sobre saúde mental:
“Essas falas moldam percepções. Quando a psiquiatria vira argumento retórico, deixamos de promover informação séria e acesso ao cuidado especializado.”
O que fazer diante de sinais de confusão mental?
O médico ressalta que qualquer alteração súbita de comportamento deve ser investigada com uma avaliação clínica completa, incluindo exames físicos, laboratoriais, histórico médico e análise psiquiátrica detalhada. Só assim é possível diferenciar um episódio psicótico de uma reação tóxica ou medicamentosa e indicar o tratamento adequado.
“Mais importante do que rotular é garantir que qualquer pessoa — pública ou não — receba um diagnóstico responsável, baseado em evidências e conduzido com ética”, conclui.
