A consagração de Wagner Moura ontem, em uma das principais cerimônias de premiação do mundo, deveria ser motivo de feriado nacional — ou, no mínimo, de um orgulho coletivo nas redes sociais. No entanto, o que se viu nas timelines brasileiras foi um fenômeno ruidoso e dividido: de um lado, a celebração da arte; do outro, o silêncio gelado ou a crítica ácida, não à atuação, mas ao CPF do ator.
Por que, afinal, o sucesso de um artista brasileiro no exterior incomoda tanto uma parcela dos próprios brasileiros? A resposta não está na qualidade dos roteiros, mas na trincheira onde cada um escolheu morar.
Tribalismo
A cultura, historicamente um terreno de encontro, virou um campo de batalha. No Brasil atual, o consumo de arte deixou de ser uma experiência estética para virar um atestado de antecedentes ideológicos. Se o ator X ou a diretora Y criticaram o político que eu admiro (ou apoiaram o que eu detesto), o trabalho deles torna-se automaticamente “lixo” ou “panfletagem”.
Wagner Moura, com seu histórico de posicionamentos firmes, tornou-se o para-raios perfeito dessa lógica. Para seus detratores, ele não é um talento exportação que coloca o Brasil no mapa; ele é um adversário político que “não merece” o aplauso, mesmo que sua performance seja impecável. O julgamento artístico foi substituído pelo julgamento moral-partidário.
Boicote
Esse comportamento não é isolado. Vimos isso recentemente com a campanha contra “Ainda Estou Aqui”, filme protagonizado por Fernanda Torres. Antes mesmo de assistirem à obra, grupos se organizaram digitalmente para baixar a nota do filme em agregadores de crítica. O motivo? A temática da ditadura ou o posicionamento político da família da atriz.
O “boicote” tornou-se uma ferramenta de vingança. A lógica é: “se eles não representam os meus valores, eu vou sabotar o sucesso comercial deles”. O problema é que, ao tentar punir o artista, pune-se o cinema nacional, uma indústria que gera emprego, renda e soft power para o país inteiro.
Cegueira
O efeito colateral mais triste dessa polarização é a cegueira cultural. Deixamos de apreciar nuances. Um filme não pode mais ser apenas uma boa história; ele precisa passar pelo “controle de qualidade ideológico” do espectador.
Filmes brasileiros recentes que triunfaram em Cannes, Veneza ou Berlim são frequentemente recebidos internamente com desconfiança, rotulados pejorativamente antes do primeiro trailer. Criou-se uma barreira cognitiva onde é impossível admitir que o “inimigo” é talentoso. Se Wagner Moura vence, quem perde — na cabeça do militante polarizado — é a sua visão de mundo, e não apenas um ator concorrente.
Soberania
No fim das contas, essa “anti-torcida” ignora um princípio básico de nação: a soberania cultural. Quando Parasita ganhou o Oscar, a Coreia do Sul inteira celebrou, independentemente das críticas sociais ácidas que o filme fazia ao próprio país. Eles entenderam que a vitória era da marca “Coreia”.
No Brasil, ainda estamos aprendendo a separar o palanque da plateia. Torcer contra um filme brasileiro no Oscar ou contra um ator premiado internacionalmente é como torcer contra a Seleção porque você não gosta do técnico: o time perde, a torcida sofre, e o troféu vai para o vizinho — que, ao contrário de nós, sabe aplaudir os seus.
