Com imenso pesar, sabe-se lá, comunicamos o falecimento da Tristeza, figura icônica que acompanha a humanidade desde os primórdios da história. A causa da morte foi overdose de alegria e histeria esperançosa em um evento surreal que colore este dia de tons vibrantes e inusitados.
A Tristeza, musa de poetas e artistas, sempre esteve presente nos momentos mais sombrios da vida, inspirando obras melancólicas e reflexões profundas. De Homero a Shakespeare e a Vinicius de Moraes, sua presença era constante, tecendo versos carregados de dor e saudade. Sombreando o sol e encobrindo o fogo.
Lembramos de sonetos que choravam a perda de amores, de canções que lamentavam a partida de entes queridos, de pinturas que retratavam a solidão da alma humana. A Tristeza era a musa inspiradora da melancolia, a confidente dos corações partidos, a companheira dos momentos de luto. A razão demasiada derramada em cinzas.
Mas hoje, em algum lugar de fevereiro, algo extraordinário aconteceu. A Tristeza, em um ato de rebeldia, sucumbiu à overdose de ousadia e banhou-se no tesão do tempo áureo sem fim, sem Cronos nem cronometria. As ruas se inundaram de sorrisos, as gargalhadas ecoaram nos becos e praças, e a esperança floresceu nos corações como um jardim exuberante de tulipas e rosas esverdeadas.
Poemas que antes celebravam a perda agora transbordam de júbilo. “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias se transforma em um hino à volta para casa. “O Corvo” de Edgar Allan Poe se torna um cisne de luz, anunciando a chegada de um novo amanhecer sem canto de despedida.
Os artistas, perplexos e maravilhados, reinterpretam suas obras. A melancolia de Edward Hopper se torna um turbilhão de cores vibrantes, até lembram de longe a sonata patética de Romero Brito. Ninguém mais num quadro pintado só, só pintado o quadro a dois ou três ou cinquenta. A “Pietà” de Michelangelo se transforma em uma escultura que celebra a vida, da dor ao delírio de quem outrora morto, já sai dançando antes da hora. A “Noite Estrelada” de Vincent van Gogh se ilumina com mil sóis a dar inveja em Copérnico e Galileu.
Neste dia surreal, a própria realidade se dobra à fantasia. O céu se tinge de tons nunca antes vistos, bonsais brotam no asfalto, e os animais dançam em uníssono nas ruas. É como se o mundo tivesse acordado de um longo pesadelo e agora se redescobre em um estado de pura felicidade e sem saber o que fazer com ela. Dance, dance, dance, estúpido!
Mas, como em toda bela tragédia, esta estética do luto invertido tem seu momento de validade. Amanhã, só amanhã, a Tristeza talvez ressuscite assumindo seu digno lugar no mundo. Mas por enquanto, vamos no interlúdio de alegria, celebrar a vida com fervor e brindar à morte da Tristeza, por hoje, por hoje, por hoje, Cinderela desavisada.
Que este dia sirva como um lembrete de que a felicidade é possível, foi-se o tempo da agonia. Que a esperança há de florescer, mesmo nos corações mais entristecidos. E que a vida, em sua dualidade, é o presente de alguém sem juízo e devemos celebrá-la com fervor, em cada sorriso, em cada lágrima de um colírio, dos olhos secos do crocodilo.
E quem sabe, em um futuro de fantasias, no carnaval de noite e dias, a morte da Tristeza não se torne permanente. Quem sabe, um dia, a alegria reinará eternamente, colorindo o mundo com suas infinitas nuances.
Até lá, sejamos todos alguma coisa neste dia único. Sorriam, dancem, cantem e celebrem a ousadia! A Tristeza está morta. Está morta!
E quanta bobagem! E quanta bobagem o vocabulário aceita e a mente sopra! Quanta bobagem! Viva a estupidez dos nossos dias! Quem sabe a burrice seja a pedra filosofal do Gênesis imaginário! E por hoje a tristeza vai morta pelo cemitério da ingenuidade!