‘Tipos de Gentileza’ ultrapassa a loucura do ser habitual do humano

O cineasta Yorgos Lanthimos sempre foi conhecido por mesclar os estilos nonsense e expressionismo alemão. Após entregar os premiados “A Favorita” e “Pobres Criaturas”, em “Tipos de Gentileza” ele parte para um caminho longe da linearidade, e apresenta uma trama que não foi feita para agradar gregos e troianos.

Realizado na sequência do longa que rendeu o segundo Oscar para Emma Stone, aqui ele traz novamente a atriz em uma narrativa onde ela interpreta três personagens bastante distintos. Isso só comprova que a própria já está no caminho para o seu terceiro careca dourado.

A trama é dividida entre os curtas “A Morte de R.M.F.”, “R.M.F está voando” e “R.M.F come um sanduíche”, com cerca de 50 minutos cada. O intuito das três é apresentar histórias onde o ser humano pode ir além dos seus limites para agradar o próximo e os seus próprios ideais. 

Assim como Emma, os atores Jesse Plemons, Willem Dafoe, Hong Chau, Margaret Qualley, Joe Alwyn e Mamoudou Athie também interpretam personagens diferentes em cada um dos curtas, que sutilmente funcionam de forma antológica, mas são interligados pela presença do personagem R.M.F (Yorgos Stefanakos). 

O roteiro escrito por Lanthimos e Efthimis Filippou (que já trabalhou com ele em suas primeiras produções como “O Lagosta”), não se preocupa em explicar o significado das situações, mas sim chocar o espectador com cenas breves e impactantes que chegam a envolver mutilação e sexo (pelas quais justificam a censura 18 anos). Tudo isso regado a um humor negro bastante sutíl. 

A sensação de desconforto só piora, quando a trilha sonora de Jerskin Fendrix começa a ser executada. Com batidas e vozes incômodas, elas servem para transparecer o quão tensas estão as vidas e decisões dos personagens. Isso leva o recurso a ser uma espécie de coadjuvante, devido a importância que ele começa a apresentar.

Por conta deste teor de loucura, os próprios atores (com exceção de Dafoe) provaram que conseguem ir além de suas zonas de conforto. Um exemplo destes que deu certo, é o próprio Plemons que recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes 2024. 

Com uma narrativa lenta e nem um pouco auto-explicativa, boa parte do público pode desistir facilmente de chegar até o desfecho do longa (que possui quase três horas de duração). Devido a essas razões, já deixo claro que se você procura algo como “Pobres Criaturas”, não embarque nesse navio.

“Tipos de Gentileza” é mais uma crônica com várias loucuras da mente excêntrica de Yorgos Lanthimos