Realizar um sonho ao cruzar a Cordilheira Blanca, no Peru, em 10 dias, de bicicleta. Essa foi a aventura de dois ciclistas que enfrentaram inúmeros desafios, como chuva, frio, lama, neve e altitude, chegando a quase 5 mil metros de altitude nas montanhas do Parque Nacional de Huascarán.
Marco Brandão, de Itanhaém, e o professor de Matemática Aramis Júnior, de Paranaguá (PR), partiram para a aventura dia 7 de janeiro e retornaram após 16 dias.
Eles viajam juntos desde 2015 e essa já é a 12ª viagem da dupla. Com vasta experiência em viagens nas regiões de montanhas, os ciclistas já conhecem diversos países na América do Sul.
Confira a entrevista a seguir:
Diário do Litoral – Como decidiram ir até Cordilheira Blanca, no Peru, de bicicleta?
Marco Brandão – Conhecer a Cordilheira Blanca já era uma ideia antiga. O objetivo principal era estar em um cenário que, mesmo no verão, tivesse cara de inverno. E a Cordilheira Blanca é exatamente isso. Ela recebe esse nome porque permanece nevada o ano todo, graças à altitude. Ali estão algumas das montanhas mais altas do Peru.
A ideia era cruzar a cordilheira para o lado de lá, fazer um grande contorno e cruzá-la novamente para o lado de cá, completando um circuito ao redor do Parque Nacional de Huascarán e suas montanhas.
Fomos no dia 7 de janeiro e, dia 8, já estávamos com as bikes na estrada, saindo de Huaraz em direção a Carhuaz e à cordilheira. Decidimos ir no mês de janeiro, no período de chuvas, o que deixou tudo ainda mais desafiador e difícil.
Huaraz é praticamente a porta de entrada da Cordilheira Blanca, uma cidade andina cercada por montanhas gigantes. Já Carhuaz é uma cidade menor, acolhedora, famosa pelos doces e pela hospitalidade do povo local. De longe já se avistavam as montanhas imponentes.
DL – Essa foi a primeira vez no Peru? Quantos dias para fazer o percurso?
MB – Sim foi a primeira vez no Peru e a primeira vez pedalando na Cordilheira Blanca. Já tínhamos muito contato e experiência com outros trechos da Cordilheira dos Andes (Chile, Argentina e Bolívia), todavia no Peru, era de fato, a primeira vez.
Levamos 10 duros dias para completar o circuito. Duros dias mesmo!
Com chuva frio, lama, neve e altitude. Cada quilômetro na altitude da Cordilheira peruana vale por três.
DL – Quais foram os principais desafios durante a viagem?
MB – Chuva, altitude, neve e terreno. Na Cordilheira a subida em caracoles é bem longa, cada quilômetro parece maior. O ar é rarefeito, falta, e o corpo sente bastante. Pegamos chuva constante, frio intenso e até neve em alguns momentos.
No terceiro dia, ao final da subida da Punta Olímpica, o túnel mais alto das Américas, quase congelamos. Tivemos que nos abrigar em nosso saco de dormir para nos aquecer.
Mas o maior desafio é interno: controlar a mente quando o corpo cansa. Nessas horas entram amizade, companheirismo e gratidão por estar vivendo aquilo e, principalmente, lembrar que foi nossa escolha e planejamento estar ali.
DL – Qual foi a altitude até as montanhas? E quantos quilômetros pra chegar?
MB – Chegamos próximos dos 4.700 a 5.000 metros de altitude em alguns pontos da travessia, com subidas de 20 a 30 quilômetros. É uma altitude que muda a respiração, a disposição e o ritmo.
Percorremos aproximadamente 500 quilômetros, mas em estrada de lama, cada km vale por três.
O lado bom é que a natureza e as paisagens distraem.
DL – O que vocês levaram de comida e água?
MB – Levamos o básico e funcional: pão, bolachas, sardinha, atum, chocolates, salgadinhos, são alimentos fáceis de carregar e de consumir na estrada.
Sempre que encontrávamos vilarejos aproveitávamos para nos alimentar melhor e experimentar a culinária local. A comida andina é simples, mas muito nutritiva, como sopas quentes, pratos com muitas variedades de batatas, milho, carnes e frutas frescas da região.
E o cuy peruano, um prato tradicional andino, feito com o porquinho-da-índia e servido assado ou frito inteiro. Considerado uma iguaria rica em proteínas e com baixo teor de gordura, é um pilar da culinária ancestral no Peru. A carne é saborosa e macia.
Levamos água em boa quantidade, reabastecendo quando possível. Em altitude, hidratação é coisa séria, principalmente no frio, onde não sentimos a transpiração.
DL – E a temperatura como estava?
MB – Houve momentos de sol forte, que arde por causa da altitude e marca a pele. Mas o clima foi predominantemente chuvoso, frio e nebuloso e com a presença de neve, principalmente nas manhãs. Infelizmente não foi o melhor clima para avistar as montanhas.
Durante o dia podia ter sol, mas bastava o tempo virar para a temperatura despencar. De manhã cedo e à noite era frio de verdade. Usar camadas de roupa foi essencial.
DL – Como foi o retorno?
MB – Após 10 dias intensos pelo circuito da Cordilheira Blanca, aproveitamos o caminho para conhecer lugares e lacunas incríveis: a região de Huascarán, Laguna Cancaranguá, Quebrada de Llanganuco e a Laguna 69, famosa por suas águas azul turquesa cristalinas (que exige trekking de quase 10 km e chega a mais de 4 mil metros e altitude), e as dezenas de caracoles (zig-zags de subidas).
Passamos por cidades como Chacas, Sapcha, Yanama, Yungay e Vaquería, além de subir no pedal montanhas como a Pupash. Tudo isso somado à culinária e à receptividade do povo local.
Nosso plano inicial incluía outras estradas e lagunas, mas soubemos que estavam em condições ruins de lama e chuva. Então decidimos adaptar o roteiro e seguir para Machu Picchu. Lá escalamos a montanha de Huayna Picchu, fizemos trilhas a pé até Machu Picchu e ainda o caminho de “Hidrelétrica” saindo de Águas Calientes.
Foi uma das cicloviagens mais difíceis que já encaramos. Voltamos completos, satisfeitos, fadigados e extasiados.
No total foram 16 dias com sabor de um ano inteiro. Toda cicloviagem tem histórias para contar. O clima virou, houve ajustes de rota, cansaço acumulado, mas nada que tirasse o brilho da experiência.
DL – E os planos pra próxima viagem de bike?
MB – Ainda não temos um destino definido, mas certamente será algum lugar do planeta com montanhas e estradas incríveis.
Só temos uma certeza, não será um período de chuvas e lama de novo.
Porque, no fundo, não é só sobre pedalar. É sobre viver, aprender e se conectar com pessoas e lugares.