O que parece desafiar a gravidade, na verdade, é um truque da própria Terra. Em trechos do Green River (o “Rio Verde”), nos Estados Unidos, muita gente tem a sensação de que a água sobe a encosta — como se o curso d’água “corresse morro acima”.
A cena, que por décadas alimentou dúvidas e curiosidade, ganhou uma explicação mais convincente com a análise detalhada da história geológica da região.
O Green River é um dos rios mais relevantes do Oeste americano. Ele atravessa áreas de Wyoming, Utah e Colorado e cumpre um papel importante tanto no abastecimento de comunidades quanto no lazer, com atividades como pesca e passeios em suas margens.
Por que o rio parece subir?
A “subida” não é real. O que muda, segundo os pesquisadores, é o terreno ao redor. Em outras palavras: não é a água que vence a gravidade, e sim a paisagem que foi se reconfigurando ao longo de milhões de anos, criando um efeito visual enganoso em alguns pontos do trajeto.
Essa impressão incomum chamou atenção porque o rio preserva um caminho antigo por uma área montanhosa complexa — e aí está a parte intrigante da história.
Nesse contexto, vale lembrar que, no Brasil, um rio também é famoso em por ter uma característica única e ‘correr ao contrário’.
Um curso d’água mais velho do que o cenário
Estimativas indicam que o Green River mantém seu trajeto há mais de 8 milhões de anos. Já as formações por onde ele passa são bem mais antigas: há cadeias montanhosas na região com cerca de 50 milhões de anos.
Ao longo desse percurso, o rio nasce na cordilheira Wind River e também esteve ligado à formação do Cânion de Lodore, um trecho conhecido por suas paredes rochosas e pelo recorte dramático na paisagem.
A diferença entre a idade do rio e a antiguidade das estruturas ao redor abriu espaço para uma pergunta central: se as montanhas já estavam ali há tanto tempo, por que o relevo parece “contradizer” o sentido natural do escoamento em alguns pontos?
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O que a pesquisa encontrou
Para entender o quebra-cabeça, uma equipe liderada pelo geólogo Adam Smith, da Universidade de Glasgow, reconstituiu a evolução da área com apoio de imagens sísmicas e modelagens baseadas em dados geológicos.
O resultado aponta que a sensação de “rio subindo” está associada a mudanças graduais no relevo das Montanhas Uinta.
Em vez de um curso d’água invertido, o que aconteceu foi um rebaixamento progressivo do terreno em determinadas fases, alterando as referências visuais e a leitura intuitiva do declive.
O papel do “gotejamento litosférico”
O mecanismo sugerido para esse rebaixamento é um processo conhecido como gotejamento litosférico.
Em termos simples, parte da crosta (a camada mais externa do planeta) pode aquecer, engrossar e, com o tempo, afundar em direção ao manto — como se “pingasse” lentamente para dentro da Terra.
Os dados analisados indicam que esse rebaixamento teria ocorrido entre 2 e 5 milhões de anos atrás. Depois disso, a região entrou em uma etapa de recuperação e remodelação do relevo, enquanto o Green River foi ajustando sua rota às transformações do ambiente ao longo do tempo.
Um lembrete de que a paisagem também se move
A conclusão ajuda a colocar o fenômeno em perspectiva: rios raramente fazem “milagre”, mas podem atravessar períodos longos o bastante para registrar, no próprio caminho, as mudanças silenciosas do planeta.
O que parece impossível à primeira vista, muitas vezes, é apenas o encontro entre um curso d’água persistente e um cenário que nunca ficou realmente parado.