Pressão arterial em idosos: metas personalizadas para prevenir riscos sem exageros

Diretrizes internacionais e especialistas defendem que o controle da pressão arterial em idosos deve considerar histórico, sintomas e risco cardiovascular, e não apenas um número padrão

Durante décadas, a famosa marca do “12 por 8” foi considerada sinônimo de pressão arterial perfeita. Mas a medicina vem revendo essa ideia, principalmente quando o assunto é envelhecimento.

Especialistas afirmam que não existe um único valor ideal que sirva para todos, especialmente para pessoas acima dos 65 anos. O motivo é simples: o corpo muda com o tempo.

Segundo o médico Mário Tenório, que atua na área de medicina funcional, o envelhecimento provoca alterações naturais, como a perda de elasticidade das artérias e mudanças nos mecanismos que regulam a pressão arterial. Esses processos são esperados e nem sempre indicam doença.

Por isso, aplicar uma meta rígida e universal pode ser inadequado e, em alguns casos, até prejudicial.

O que deve ser avaliado antes de definir a meta

Segundo especialistas, três fatores principais precisam ser considerados antes de estabelecer a meta de pressão arterial em idosos:

•    Histórico médico e presença de outras doenças
•    Sintomas, como tontura ou queda de pressão
•    Risco cardiovascular individual

Dependendo do seu nível de autonomia e condição geral de saúde, o estado funcional da pessoa também entra nessa conta.

O que dizem as diretrizes internacionais

As recomendações atuais já caminham para metas mais personalizadas.

Nos Estados Unidos, as diretrizes do ACC/AHA indicam que muitos pacientes acima de 65 anos podem ter como meta pressão sistólica abaixo de 130 mmHg, desde que haja acompanhamento adequado. Para idosos com menor risco, valores abaixo de 140/90 mmHg também podem ser aceitáveis.

Na Europa, as orientações sugerem que, entre 65 e 80 anos, a pressão sistólica pode ficar entre 130 e 139 mmHg, se bem tolerada. Já para pessoas acima de 80 anos, a faixa considerada adequada pode variar entre 140 e 150 mmHg.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Hypertension reforçou essa abordagem: em pacientes com 75 anos ou mais, atingir pressão sistólica abaixo de 130 mmHg reduziu eventos cardiovasculares e mortalidade, sem aumento significativo de efeitos adversos graves.

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Na Ásia, diretrizes de Taiwan passaram a considerar hipertensão quando a média da pressão medida em casa ultrapassa 130/80 mmHg.

O país também incentiva o modelo de medição domiciliar conhecido como 722: duas medições, duas vezes ao dia, durante sete dias.

Quando a pressão baixa demais pode virar problema

Se por um lado a pressão alta aumenta o risco de AVC e infarto, por outro, reduzi-la excessivamente também pode trazer riscos.

Em idosos, a queda acentuada da pressão diastólica pode comprometer a circulação cerebral, provocando tontura, visão turva, fadiga e hipotensão postural.

O maior perigo são as quedas. Fraturas, internações prolongadas e perda de autonomia funcional estão entre as principais consequências.

Controle continua sendo essencial

A mensagem dos especialistas não é abandonar o tratamento. É tratar com critério. O controle da pressão arterial continua sendo fundamental para prevenir AVC, infarto e doença renal crônica.

O que muda é a estratégia.

Entre as recomendações básicas estão:

•    Praticar exercícios regularmente
•    Reduzir o consumo de sal
•    Controlar o peso
•    Melhorar a qualidade do sono

Para quem já usa medicação anti-hipertensiva, o alerta é claro: não interromper o uso por conta própria, mesmo quando os níveis estiverem controlados.

*Por Raphael Miras