Se você mora em uma das muitas cidades históricas do Brasil talvez já tenha ouvido o conselho dos mais velhos: “Durante a Quaresma, não olhe pelas frestas da janela após a meia-noite”.
Dizem que, no silêncio profundo das madrugadas de sexta-feira, o som de correntes arrastadas e orações sussurradas não vem de vizinhos devotos, mas de quem já partiu. É a Procissão das Almas.
O Cortejo dos Mortos
A lenda é arrepiante. Um grupo de figuras vestidas de branco, com velas acesas nas mãos e rostos cobertos, caminha lentamente pelas ruas desertas. O objetivo? Pedir orações para as almas que ainda não encontraram descanso. Mas o perigo mora na curiosidade.
Segundo o folclore, se você for visto olhando para eles, uma das almas se aproximará e lhe entregará uma vela. O susto vem ao amanhecer: ao acordar, a vela deixada sobre a mesa não é mais de cera, mas sim um osso humano. Quem recebe esse “presente” estaria marcado para se juntar ao cortejo na próxima Quaresma.
Mistério
Essa lenda ganha contornos reais através da tradição da Recomendação das Almas, um ritual centenário muito forte em muitas cidades de Minas Gerais e de Santa Catarina. Eles saem de madrugada, parando em encruzilhadas e cemitérios para cantar e rezar.
Muitas vezes, moradores juram que, ao ouvir o som de longe, não conseguem distinguir se são os devotos vivos ou se, entre eles, caminham os próprios espíritos em busca de luz.
De onde vem o temor?
Estudiosos do folclore brasileiro, como Luís da Câmara Cascudo, explicam que essa tradição veio de Portugal e se fundiu com a fé local. No Brasil, o isolamento das vilas antigas ajudou a manter o mistério vivo.
Como agir se ouvir passos na sexta, pós meia-noite?
A tradição é clara:
- Não abra a porta;
- Não tente identificar os rostos;
- Se receber algo, não aceite;
- Reze um Pai Nosso e espere o sol nascer.
Afinal, na Quaresma, as fronteiras entre o nosso mundo e o “outro lado” parecem ficar mais acessíveis.
Fontes: IPHAN (Patrimônio Imaterial), Arquivo Histórico Municipal de Iguape e “Dicionário do Folclore Brasileiro” de Câmara Cascudo.