Se os EUA são os reis do petróleo, por que ainda dependem de outros países?

Os EUA lideram a produção de petróleo, mas suas refinarias escondem um erro histórico que os obriga a comprar óleo de fora; entenda

Reis do petróleo, os EUA ainda dependem de outros países produtores

Reis do petróleo, os EUA ainda dependem de outros países produtores | Arquivo/Agência Brasil

É uma das maiores ironias da geopolítica moderna: hoje, os Estados Unidos extraem mais petróleo do que pesos-pesados como Arábia Saudita e Rússia, liderando o ranking global de produção de forma isolada. Mas, se eles têm tanto “ouro negro” no próprio quintal, por que ainda monitoram cada gota de óleo no Oriente Médio e negociam barris com países rivais? A resposta esconde um erro de cálculo histórico e uma estratégia bilionária que afeta diretamente o preço da gasolina no mundo todo.

Para entender esse quebra-cabeça, é preciso olhar para os dados da EIA (Administração de Informação de Energia dos EUA) e desmistificar a ideia de que todo petróleo é igual. O domínio americano recente aconteceu graças ao fracking (extração em rochas de xisto), que jorra um petróleo classificado como “leve e doce” — puríssimo e de altíssimo valor de mercado.

Aí começa o problema.

O erro de cálculo das super refinarias

As gigantescas refinarias americanas, localizadas principalmente na costa do Golfo do México, foram construídas décadas atrás, muito antes da revolução do xisto. Naquela época, os EUA projetaram suas indústrias para processar o petróleo “pesado e azedo” importado de países como Venezuela, México e nações do Oriente Médio.

O resultado hoje é um cenário bizarro:

  • Os EUA produzem um mar de petróleo leve premium, mas suas maiores fábricas não são otimizadas para lidar apenas com ele.
  • A solução econômica? Os americanos exportam o petróleo caro que produzem (lucrando muito no mercado internacional) e continuam importando o petróleo pesado (mais barato) para manter suas refinarias operando na capacidade máxima sem precisar gastar bilhões em reformas estruturais.

A ditadura do preço global

Além da questão industrial, existe o fator bolso. O petróleo é uma commodity global, o que significa que o seu preço é definido pelo mercado mundial, não pelo mercado local.

Segundo análises da Agência Internacional de Energia (AIE), se uma guerra estourar no Oriente Médio e a oferta global de petróleo cair, o preço do barril vai disparar na bolsa de valores. Consequentemente, a gasolina vai ficar mais cara nos postos dos Estados Unidos, mesmo que eles estejam produzindo recordes de barris internamente. E gasolina cara gera inflação, o que pode derrubar qualquer presidente americano nas urnas.

O controle da economia mundial

Por fim, quem garante o fluxo de petróleo, dita as regras do jogo. A Europa e grandes rivais americanos, como a China, dependem desesperadamente do petróleo estrangeiro. Ao manter navios de guerra protegendo rotas comerciais no Oriente Médio e exercendo influência sobre países produtores, os EUA garantem que a economia global continue girando a seu favor e mantêm uma alavanca de poder insuperável sobre seus adversários.

No fim das contas, a autossuficiência energética dos EUA no papel não os blinda da realidade: no mundo do petróleo, ninguém joga sozinho.