As ferramentas de Inteligência Artificial (IA) capazes de criar músicas e trilhas sonoras estão, cada vez mais, viralizando nas redes sociais. Algumas pessoas utilizam esses recursos por diversão, e outras para questões profissionais; afinal, as opções são gratuitas e diversas, como o Lyria 3 (do Gemini), Suno, Canva, entre outras.
Este desenvolvimento tecnológico não é necessariamente ruim e, dependendo de como for utilizado, pode contribuir eficientemente para a produção musical. No entanto, segundo Henrique Perez — mais conhecido por seu nome artístico, DJ Perez —, essa utilização contínua pode apresentar riscos no futuro.
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Como a IA pode prejudicar o trabalho “humano”?
De acordo com Perez, se bem utilizada, a aplicação da IA pode ser extremamente eficaz para a produção musical, principalmente com seu vasto portfólio de instrumentos virtuais.
“Hoje, no geral, acho que está ajudando mais do que prejudicando, principalmente para aqueles que estão começando na profissão e querem aprender a produzir música. As ferramentas de separação de áudio (como Moises e Demucs) viraram um ‘superpoder’: você pode isolar instrumentos, além de referenciar timbres e entender arranjos com uma facilidade que era quase impossível há poucos anos”.
Apesar dos benefícios mencionados, o DJ alerta que, no futuro, o desenvolvimento tecnológico pode acabar gerando espécies de “máquinas de produção”, representando riscos reais aos músicos.
“A IA está sendo direcionada a um próximo estágio em que se torna uma ‘máquina de produção’. Neste caso, há riscos reais tanto para produtores quanto para gravadoras que vivem de demandas genéricas, mainstream e populares. Não é que a IA ‘mate’ o produtor, ela pressiona o mercado de modo previsível. Atualmente, ela pode até ser usada como ferramenta de auxílio, mas cria uma sombra para o futuro”.
IA como ferramenta de apoio
Apesar de muitas opiniões conflitantes, Perez cita que, em sua visão, a IA é um recurso criativo e incrivelmente útil, caso seja utilizado da forma correta.
“Para mim, é uma ferramenta de apoio e pode ser extremamente criativa, dependendo de como é usada. Existem discussões na internet afirmando que a IA ‘não é arte’. Porém, a indústria musical já apresenta processos padronizados há muito tempo: ‘receitas’ de música pop e sertanejo, bancos de samples, estruturas repetidas… Isso, entretanto, não anulou a música até hoje”.
Contudo, sua aplicação genérica preocupa o DJ quanto a um certo “apego” por parte do público a faixas sonoras genéricas, com pouca engenhosidade e inovação. Portanto, é necessário que o artista tenha criatividade e intenção em seus comandos (prompts), direcionando a IA para o cenário desejado.
“Se um artista escreve um prompt específico, cheio de intenção, referências, ideias e direção estética, utilizando a IA para executar partes do trabalho… isso, para mim, é mais música do que produção industrial automática. O problema não é a ferramenta, mas sim quando ela vira um atalho para continuar na mesmice, entregando um trabalho padronizado”.
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Riscos no mercado de trabalho
Perez pontua que a contratação de profissionais da área depende do estilo musical de preferência. Caso o trabalho desejado seja de caráter mais genérico, a IA pode ser uma substituta de fato. No entanto, ele destaca que o valor do trabalho humano permanece.
“A substituição acontecerá, principalmente, em espaços onde a música é tratada como commodity, incluindo produções genéricas, variações padronizadas e conteúdos em escala. Se o contratante quiser uma música com fatores específicos apenas para utilizá-la como fundo, a IA vai ganhar muito espaço”.
Adicionalmente, o DJ divide a evolução da Inteligência Artificial na música em três fases:
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Fase 1 (Atual): IA como ferramenta que acelera tarefas, reduz barreiras e ajuda artistas;
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Fase 2 (Futuro): IA como máquina de produção do genérico e geração de mainstream, com forte divergência de opiniões;
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Fase 3 (Esperançosa): A IA continua sendo um auxílio artístico. Produtores utilizam a tecnologia no processo criativo, e não como forma de substituição laboral.
Importância da criação “humana”
O produtor finaliza destacando que a produção humana é, e sempre será, o centro da criação musical. Os instrumentos digitais podem auxiliar artistas e estarão cada vez mais presentes, mas a intensidade sentimental vinda do artista não pode ser replicada.
“A criação original é o centro de tudo, visto que o gosto sempre prevalecerá na música. Em uma palestra da qual participei, da Google na ADE (Amsterdam Dance Event), a conclusão foi a mesma: a IA na música chegará de qualquer jeito; negar isso é perda de tempo. O que diferencia os artistas não é a barreira técnica, mas os fatores humanos: decisões, sensibilidade e identidade”.
