O Brasil entrou em estado de alerta máximo diante do avanço expressivo dos casos de sarampo em diversos países das Américas. O cenário preocupa autoridades de saúde, que intensificaram ações de prevenção para evitar que a doença volte a circular de forma sustentada no país.
De acordo com o diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Eder Gatti, o objetivo é manter o Brasil como área livre do sarampo — certificado reconquistado em 2024 após anos de enfrentamento da doença.
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Explosão de casos no continente acende sinal vermelho
Os números mostram um cenário de alerta crescente. Em 2025, foram registrados 14.891 casos de sarampo em 14 países das Américas, com 29 mortes. Já em 2026, apenas até o início de março, o continente já soma 7.145 infecções confirmadas.
Esse avanço representa uma disparada significativa em relação aos anos anteriores. Em comparação com 2024, quando foram registrados apenas 446 casos, o aumento chega a dezenas de vezes, o que levou a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) a classificar o risco como elevado para toda a região.
Além disso, a circulação contínua do vírus em países como Canadá fez com que as Américas perdessem o status de área livre de transmissão endêmica do sarampo — um marco importante na saúde pública internacional.
Caso importado em São Paulo reacende atenção no Brasil
No Brasil, o primeiro caso confirmado em 2026 ocorreu na cidade de São Paulo e envolve uma bebê de seis meses que contraiu a doença durante viagem à Bolívia, país que enfrenta um surto ativo. Apesar do registro, o país ainda não apresenta transmissão sustentada — fator determinante para manter o certificado de eliminação.
Em 2025, foram confirmados 38 casos no Brasil, a maioria relacionada a importações do vírus ou à falta de vacinação.
Rovena Rosa/Agência BrasilDoença altamente contagiosa e com risco de complicações
O sarampo é uma doença viral extremamente contagiosa, transmitida pelo ar por meio de gotículas expelidas ao tossir, falar ou espirrar. Uma única pessoa infectada pode contaminar até 90% das pessoas não vacinadas ao seu redor. Os sintomas iniciais incluem febre alta, tosse, coriza e irritação nos olhos. Dias depois, surgem manchas vermelhas que se espalham pelo corpo.
Embora muitos casos evoluam para recuperação, a doença pode provocar complicações graves, como pneumonia, encefalite (inflamação no cérebro), cegueira e até morte, principalmente em crianças pequenas e pessoas com baixa imunidade.
Vacinação: A principal barreira contra novos surtos
Especialistas são unânimes: a vacinação é a forma mais eficaz de prevenção. A vacina contra o sarampo não apenas protege quem recebe a dose, mas também reduz a circulação do vírus na comunidade, criando uma barreira coletiva de proteção. No Brasil, o esquema vacinal prevê duas doses aplicadas ainda na infância.
No entanto, a cobertura ainda está abaixo do ideal. Em 2025, 92,5% das crianças receberam a primeira dose, mas apenas 77,9% completaram o esquema na idade correta — índice inferior aos 95% recomendados para impedir a circulação do vírus. A queda na vacinação é apontada como um dos principais fatores para o ressurgimento da doença nas Américas.
Ministério da Saúde/DivulgaçãoEstratégia de resposta: Bloqueio vacinal e busca ativa
Diante de qualquer suspeita, o Brasil adota um protocolo rigoroso. O chamado bloqueio vacinal consiste na identificação e imunização imediata de todas as pessoas que tiveram contato com o possível infectado. As equipes de saúde realizam:
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Rastreamento de contatos próximos;
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Vacinação emergencial;
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Busca ativa de casos, inclusive com visitas domiciliares.
Quando um caso é confirmado, a região passa a ser monitorada por até três meses, evitando a formação de cadeias de transmissão.
Proteção extra para bebês (Dose Zero)
Em situações de risco, como contato com casos suspeitos, bebês entre 6 meses e 1 ano podem receber uma dose antecipada da vacina, chamada de “dose zero”. Mesmo assim, eles precisam completar o esquema vacinal posteriormente, conforme o calendário oficial.
Viagens e turismo aumentam o risco de disseminação
O aumento da circulação internacional também preocupa. Países com altos índices de sarampo, como Estados Unidos, México e Canadá, devem receber grandes fluxos de turistas, o que pode favorecer a disseminação global da doença.
Além disso, regiões brasileiras com grande entrada de visitantes estrangeiros — como o litoral, a Amazônia, o Pantanal e cidades de fronteira — são consideradas áreas estratégicas para vigilância. O vírus pode permanecer ativo no ambiente por até duas horas, facilitando ainda mais a transmissão em locais com grande circulação de pessoas.
Brasil tenta evitar novo retrocesso na saúde pública
O país já enfrentou surtos recentes e chegou a perder o certificado de eliminação do sarampo entre 2019 e 2024. Agora, o desafio é evitar que a história se repita. Autoridades afirmam que o Brasil tem capacidade técnica para conter a doença, mas alertam: o sucesso depende diretamente da vacinação em massa e da conscientização da população.
O recado é claro
O avanço do sarampo nas Américas mostra que a doença está longe de ser erradicada. Com baixa cobertura vacinal e aumento das viagens internacionais, o risco de novos surtos permanece real. A diferença entre controle e nova crise está na vacinação — e na rapidez das ações de prevenção.
