Após 70 anos desaparecido no Brasil, homem é finalmente declarado morto

Baseada em diários encontrados em abrigo improvisado, a decisão judicial encerra um dos maiores enigmas das selvas do Norte

A trajetória de Raymond Maufrais inspirou livros e o filme 'La Vie pure'

A trajetória de Raymond Maufrais inspirou livros e o filme 'La Vie pure' | Reprodução/Wikipédia

O explorador e jornalista francês Raymond Maufrais, desaparecido na selva da Guiana Francesa em 1950, foi oficialmente declarado morto na quarta-feira (18) pelo tribunal judicial de Cayenne, 76 anos após seu sumiço.

“Ele teria 99 anos hoje, o que deixa pouco espaço para dúvidas”, afirmou a presidente do tribunal, Naïma Sajie, ao fixar a data da morte em 13 de janeiro de 1950, último registro deixado nos cadernos de viagem do explorador.

Maufrais desapareceu durante uma expedição solitária pela floresta amazônica, ao tentar chegar ao Brasil atravessando o interior do território. Ele partiu do litoral, subiu o rio Mana e chegou a Maripasoula antes de desaparecer ao seguir em direção ao leste.

O corpo nunca foi encontrado. A decisão judicial se baseia no artigo 88 do Código Civil francês, que permite declarar morto um desaparecido em circunstâncias que coloquem sua vida em risco.

Os diários do explorador, encontrados meses depois em um abrigo improvisado na região de Camopi, relatam os últimos dias marcados por fome e doença. Em um dos trechos, ele descreve o momento em que, sem forças, mata o próprio cachorro para se alimentar.

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Durante cerca de dez anos, seu pai, Edgar Maufrais, percorreu áreas da Guiana, do Brasil e do Suriname em busca do filho, sem sucesso. A morte nunca havia sido formalizada, em parte pela recusa da família em aceitar o desfecho e pelo fato de o explorador não ter deixado descendentes.

A iniciativa de oficializar o óbito partiu da Associação dos Amigos de Edgar e Raymond Maufrais, após uma visita à região em 2025. Segundo o presidente da entidade, Geoffroi Crunelle, a medida poderia ser solicitada por qualquer interessado.

A decisão tem caráter sobretudo simbólico. O registro de nascimento de Maufrais, em Toulon, deve ser atualizado com a data de morte, assim como o registro civil de Camopi, onde ele é considerado oficialmente falecido.

“No mistério da floresta amazônica, perdemos um escritor e um explorador”, afirmou Sajie. A trajetória de Maufrais inspirou livros e o filme “La Vie pure”, lançado em 2015.