Diagnóstico tardio impulsiona alta de HIV entre mulheres acima dos 50 no Brasil

O crescimento de casos na última década reflete baixa testagem, percepção reduzida de risco e a presença de um quase eterno tabu

A ação será realizada das 10h às 16h, na Rua Ibrahin Abdalla Set El Banat, 290, bairro Jardim Rio Branco

Santos tem programação de enfrentamento ao HIV/Aids | Divulgação/ PMS

Os casos de HIV entre mulheres com mais de 50 anos têm crescido no Brasil, em um cenário marcado por diagnóstico tardio, relações estáveis e baixa percepção de risco. Os dados foram divulgados no domingo (22) em uma reportagem da Marie Claire, da Globo.

Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2025, do Ministério da Saúde, a participação dessa faixa etária entre os diagnósticos femininos subiu de 10,9% para 17% na última década, na contramão da queda observada entre populações mais jovens.

A infectologista Raquel Guimarães, da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirma que o problema está ligado, em grande parte, à demora na testagem. “Muitas dessas mulheres são casadas e estão em relações estáveis. O HIV é o último exame que o médico pede”, explicou ela.

Apesar do aumento, o Boletim Epidemiológico observou uma queda entre os casos de populações mais jovensApesar do aumento, o Boletim Epidemiológico observou uma queda entre os casos de populações mais jovens/Pexels

Relações estáveis e tabu

Entre mulheres acima dos 50 anos, a principal forma de transmissão é a via heterossexual, o que contraria a ideia de que o risco está restrito a grupos específicos.

Especialistas apontam que o uso de preservativo em relações consideradas estáveis ainda enfrenta resistência. “Existe uma expectativa de fidelidade que muitas vezes não corresponde à realidade”, ainda justificou Raquel.

Fatores como dependência financeira, dificuldade de negociar proteção e o tabu em torno da sexualidade nessa fase da vida ampliam a vulnerabilidade. Alterações hormonais da menopausa também podem aumentar o risco de infecção, como no caso do ressecamento vaginal, que favorece microlesões.

O Brasil disponibiliza medicamentos gratuitos no SUS para auxiliar no tratamentoO Brasil disponibiliza medicamentos gratuitos no SUS para auxiliar no tratamento/Pexels

Sintomas ignorados

A ausência do teste de HIV na rotina contribui para que o diagnóstico ocorra apenas em estágios mais avançados. Sintomas como perda de peso, fadiga, falta de apetite e infecções recorrentes costumam ser atribuídos a outras condições, o que atrasa a identificação do vírus.

O impacto é maior entre mulheres pretas e pardas, que concentraram 62,5% dos diagnósticos nessa faixa etária em 2025, evidenciando desigualdades no acesso à informação e aos serviços de saúde.

Prevenção ainda pouco conhecida

O Brasil adota a chamada prevenção combinada, com estratégias disponíveis gratuitamente no SUS, como a PrEP (profilaxia pré-exposição) e a PEP (profilaxia pós-exposição). Pessoas em tratamento com carga viral indetectável também deixam de transmitir o vírus por via sexual.

Apesar disso, essas medidas ainda são pouco difundidas entre mulheres mais velhas, que muitas vezes não se reconhecem como público em risco.

A recomendação médica é incluir o teste de HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis nos exames de rotina. O diagnóstico precoce aumenta as chances de controle da doença e melhora o prognóstico.