Uma planta rara e praticamente desaparecida dos registros científicos no Rio de Janeiro foi redescoberta após mais de um século. A espécie Justicia dasyclados voltou a ser encontrada em área de Mata Atlântica preservada na Reserva Biológica Estadual de Araras, em Petrópolis.
O achado, feito em fevereiro durante monitoramento ambiental, é considerado de alto valor científico por representar apenas a segunda ocorrência conhecida da espécie no estado — e a primeira em mais de 100 anos.
Onde e como a espécie foi encontrada
A redescoberta ocorreu em uma área de floresta densa, a mais de 1.200 metros de altitude, durante uma atividade de rotina de monitoramento.
Três exemplares foram coletados e analisados por especialistas do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que confirmaram a identificação com apoio de pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Até então, o último registro conhecido da planta datava de cerca de um século atrás.
No mês passado, outra planta rara foi encontra no Brasil. Ela também estava desaparecida há mais de cem anos e foi reencontrada na Ilha de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo.
Três exemplares foram coletados e analisados por especialistas do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Divulgação/INEA)O que se sabe sobre a espécie rara
A Justicia dasyclados pertence à família Acanthaceae, grupo botânico que reúne espécies tropicais conhecidas por flores ornamentais e alta sensibilidade ambiental.
Entre as principais características da planta estão:
- flores em tons de violeta, pequenas e delicadas
- ocorrência em ambientes úmidos e sombreados, típicos de florestas densas
- crescimento como arbusto de pequeno porte
- forte dependência de ecossistemas preservados
A espécie é considerada endêmica do Brasil, com registros anteriores apenas em Minas Gerais e no Espírito Santo. No Rio de Janeiro, ela sequer constava oficialmente em bases como a Flora e Funga do Brasil, o que amplia a relevância da descoberta.
Por que o reaparecimento chama atenção
O reencontro com a espécie indica que áreas preservadas ainda podem abrigar plantas raras ou pouco documentadas — mesmo após longos períodos sem registros.
Segundo pesquisadores, fatores como difícil acesso às áreas de ocorrência, baixa densidade populacional da espécie e sensibilidade a mudanças ambientais podem explicar por que a planta ficou tanto tempo sem ser registrada.
No Nordeste, plantas raras também estão surgindo. Pesquisadores da Universidade Federal do Piauí e do Instituto Nacional da Mata Atlântica reencontraram uma nova espécie de Planta Carnívora, que faz parte do gênero Utricularia, conhecida como Utricularia warmingii. Não havia registros sobre ela há mais de 80 anos.
Reencontro com a espécie indica que áreas preservadas ainda podem abrigar plantas raras ou pouco documentadas (Divulgação/INEA)Papel das áreas protegidas
A descoberta foi feita dentro de uma unidade administrada pelo Instituto Estadual do Ambiente, responsável pela conservação da área.
A Reserva Biológica Estadual de Araras possui cerca de 3.800 hectares e é voltada exclusivamente à preservação ambiental e à pesquisa científica.
Especialistas destacam que esse tipo de unidade é essencial para:
- proteger espécies raras
- manter o equilíbrio da Mata Atlântica
- permitir avanços no conhecimento científico
O que a descoberta revela
A redescoberta de uma planta após mais de 100 anos reforça um ponto central para a ciência: a biodiversidade brasileira ainda não é totalmente conhecida.
Mesmo em regiões relativamente próximas de grandes centros urbanos, como a Região Serrana do Rio, novas ocorrências seguem sendo registradas — especialmente em áreas protegidas.
O caso da Justicia dasyclados mostra que preservar a floresta não apenas protege o que já se conhece, mas também permite revelar espécies que ficaram décadas fora do radar da ciência.
