Parei ali, na contramão. Olhei para um lado e outro e não atravessei a rua. Cidadão tranquilo e bem tratado, achei desnecessário ampliar o recado. Ali, na contramão.
Carros de passeio e algumas carroças tentaram demarcar a cena. Cavalos e trens sobre trilhos de aço e fogo também. Aviões de passageiros e não-tripulados avançaram nessa mesma direção.
Contei mentalmente as passagens daquele dia, as situações estranhas naquela hora. Pelo simples fato de um cidadão estar parado no sentido oposto do fluxo, vivenciei o inusitado e colhi plantas e frutos em meio ao asfalto. Cada vez mais rápido voavam as minhas ideias, cada vez mais veloz o meu pensamento. Vida que segue ritmo e cor.
Na contramão da marginal, qualquer marginal, via expressa surge. Flutuei no chão de estrelas, amealhei parte da sorte e demoli a jactância. Do nada ao tudo, do pós ao depois ainda. Ninguém entendeu o processo? Paciência. Ninguém sugeriu um manifesto? Paciência. Meu corpo sedento de palavras vai parindo cantigas e poemas, vai translucidando a trama, fazendo a trança do tempo.
Rápido, rápido, rápido. Na vereda de mil plantas, surgem caracóis e espantalhos. Galopei sobre meus cascos, retomei rota fugida, parei motos e charretes, quem me pediu coragem? Quem me calou no teste? De fogo, teste de fogo. Na contramão das entrelinhas. Sabendo sozinho que na casa minha manda o amor, manda ela, manda o arroz, o feijão, o bom dia e a abobrinha, o hortelã e o manjericão. Os cães, gatos, pássaros, mandam todos em tudo. E todo mundo comanda o fogão e acende as receitas. Da palma da mão, no espalmar do vento, zigue-zagando na dança do movimento. O rosto dela vai vendo e me fitando me põe à força de parar na contramão na margem de tudo, na marginal da esperança, jardim e sonho, vida real. Tudo entrecruzado na receita daquela comida da avó já distante, no gosto lambido do pescoço, no perfume suave do orvalho e dos quereres.
Na pista que não se para, parei. Separa o deserto do rio, a pedra da mola, a carta da espera. Paixão sincera e coração a mil. Andar pelas veredas e acordar feito nuvem e imagem de sol. A vida é assim na marginal da praia, areia, água, sal, onda e bem-estar-se-aqui. Juntinhos, sentados à beira do caminho e ganhando afago fofo. Brilho roxo, luz neon. Ninguém supera a parada na contramão das regras e na violação dos freios, viola que se toca no peito, abre uma orquídea para cada um. Mão, nota, som e a música dela. O canto do Trinca-Ferro. Minha veia se abre em húmus, terra que alimenta o seio do descanso amado. Para o interior do palco, abraço. Nem carro, bicicleta ou pneu derrapava, a contramão é a mirada à frente, dia quente, solstício do verão à delicadeza bruta do inverno.
De fora a fora, ignorar a semente seca, olhar o broto da rosa, ainda meio verde, meio branco, meio espada de São Jorge. Subimos no cavalo e a galope, tripudiamos a hipocrisia, a multa do guarda de trânsito, o proibido da placa vizinha. No galope em meio a uma praça qualquer de São Bento, celebramos o seu sentimento e o meu estado de rio e aguaceiro de Março.
Nunca se despeça da linha, ande na linha, mas afronte a linha reta, dê um tchau demorado da janela do trem, a dois, sem ninguém, constrói o castelo a três, consome a família a quatro e com o quinto elemento, dance um tango, almeje sempre o papo que coletivo traz paz, flecha e arco.
Na contramão da estrada, só pensava nela, em mais nada. Caverna, braço, cabelo e morada. Mais nada. Dancei a dança grega, dormi Dionísio, ela acordou Iracema, suturamos o azul e o vermelho do céu e montamos uma tenda, um balão, fabricamos nosso mel. Nem abelha fez zoada, nem vespa ou marimbondo. Na contramão nascemos outros. E estamos bem, obrigado. Para carro, para helicóptero, só o amor não para. Na contramão, na contramão