Documentário mostra “lado heróico” da ROTA

O documentário “A verdadeira história da ROTA”, do cineasta Elias Junior, foi exibido no Cinemark, em Santos, na última quarta-feira

“Eu vejo esses policiais como verdadeiros heróis. São pais de família que saem para defender alguém que eles nunca viram”. A afirmação é do cineasta Elias Junior, que dirigiu o documentário “A verdadeira história da ROTA”, em entrevista ao Cinema DL.

O dia a dia dos policiais de Rota e depoimentos de ex-policiais e familiares estão reunidos no documentário do cineasta sobre as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo.

A produção foi exibida no Cinemark, do Praiamar Shopping, em Santos, na última quarta-feira. A sala de cinema ficou lotada de policiais e público em geral, que aplaudiram o documentário no final.  

A tensão e o risco de morte são rotina na vida dos policiais de ROTA, que seguem rígidas doutrinas de disciplina. Se não “aguentar o tranco”, o policial tem que pedir para sair. É preciso ter “nervos de aço” e rigorosa disciplina para ser um “boina negra” e ostentar o braçal de ROTA no braço direito. Essa é a impressão que o documentário me passou.

Confira a entrevista com Elias Junior.

Cinema DL – Por que você quis produzir este documentário?
Elias Junior –
Esse documentário é uma antecipação de um projeto de um longa-metragem. Em 2008, eu produzi um longa-metragem que é o Rota-Comando, mas eu fiquei muito limitado. Eu era obrigado, por contrato, a seguir a história de um livro, “Matar ou Morrer”, de um ex-capitão da ROTA (Roberval Conte Lopes Lima). Eu tive as portas abertas da ROTA depois, quando o coronel Telhada (Paulo Telhada, ex-comandante da ROTA), assumiu. Em 2009, ele permitiu que eu acompanhasse o trabalho da ROTA. Então, foram seis anos de filmagem praticamente quase que diuturnamente. Isso colhendo material para um bom roteiro e um material para laboratório. Eu queria trazer o Murilo Rosa, a Paolla Oliveira, o Toni Garrido, Marco Mastronelli, o Lima Duarte para participarem do elenco. Então, eu me antecipei para fazer essas filmagens porque fiquei com medo que, na ocasião das gravações, não fosse permitida a entrada desses atores. Nada mais foi do que transformar aquelas imagens de seis anos em um documentário.

Cinema DL – Você acompanhava os policiais da ROTA nas diligências?
Elias Junior –
Sim. Eu saia com os oficiais nas viaturas durante o patrulhamento, de três a cinco vezes por semana. No início da rotina daqueles policiais até o retorno ao quartel. Praticamente, eu os acompanhava 12 horas por dia. Foi um trabalho bem afinado. Minha intenção sempre foi produzir um filme trazendo a realidade, mostrar o que a população gostaria de ver.

Cinema DL – O seu objetivo é mostrar uma imagem diferente das versões contadas em livros que já foram publicados sobre a ROTA. Qual é a verdadeira história da ROTA?
Elias Junior –
A gente tem no mercado vários livros que denigrem a imagem da ROTA como o “Rota 66” (do jornalista Caco Barcellos), tem outros que foram usados para autopromoção. E qual é a verdadeira história? A que conta no “Rota 66”, a que conta no “Matar ou Morrer”, “Cobras e Lagartos” (do jornalista Josmar Jozino), até mesmo no Carandiru (Estação Carandiru, do médico Dráuzio Varella), onde a ROTA teve uma passagem. Então, eu quis acompanhar o dia a dia desses policiais para que eu pudesse ter um roteiro muito afinado com a realidade. Como eu não consegui, ao longo de quatro anos, os editais do governo para a produção do longa-metragem, por que não fazer um documentário? Nós temos imagens reais e me antecipei com esse documentário mostrando que temos condições de produzir um longa-metragem sobre a tropa de elite tão bom quanto o do Bope (filme Tropa de Elite, de José Padilha), no Rio de Janeiro, em virtude desse laboratório.

Cinema DL – Qual a sua visão da ROTA depois de ter acompanhado de perto a rotina dos policiais?
Elias Junior –
Eu acompanho várias equipes diferentes. Praticamente, eu acompanhei o patrulhamento de todos os policiais daquele batalhão. A ROTA só aparece na mídia quando existem mortes. Então, os direitos humanos (organizações e entidades de defesa) se aproveitam dessa situação. A imprensa quando usa a ROTA é para fazer sensacionalismo. Eu vejo a ROTA como um batalhão necessário para São Paulo. Só quem viveu pode falar. A ROTA é a única polícia que os bandidos temem. É a única polícia que a população respeita. Eu vejo esses policiais como verdadeiros heróis. São pais de família que saem para defender alguém que eles nunca viram.

Cinema DL – Qual é a função da ROTA no policiamento ostensivo?
Elias Junior –
O trabalho da ROTA é ajudar num primeiro momento as viaturas que precisam de apoio, de armamento, de um treinamento melhor. E, principalmente, ela só vai nas ocorrências de maior gravidade, que é o caso de sequestros, de reféns, caso de roubo em andamento, roubo de veículo com intenção de vítima.

Cinema DL – No seu documentário também há depoimentos de policiais, ex-policiais da ROTA e familiares. Como você selecionou essas pessoas?
Elias Junior –
Eu me preocupei em ouvir ex-policiais que trabalharam na ROTA na época da sua criação, familiares, jornalistas e atuais integrantes. Esses policiais podem contar melhor a história para nós porque eles viveram. Eu tenho a Paolla Oliveira (depoimento) que é filha de um ex-oficial da ROTA. Eu tenho o Oscar Magrini que é um admirador do trabalho da ROTA, e um dos protagonistas do filme Rota Força Policial que eu estou produzindo. Então, eu quero mostrar um pouquinho de cada coisa: o que é doutrina, o que o policial passa, quando um policial perde a vida como é que fica a família, o que o policial tem que abrir mão para trabalhar na ROTA, o que são as doutrinas de ROTA que tanto se fala. Por exemplo: Um policial de ROTA não bebe em serviço, não olha para mulheres durante o patrulhamento, tem a dignidade de pagar o seu consumo quando ele para para fazer a sua refeição, ele para o seu patrulhamento para um senhor, uma senhora, um pai de família, quando estão chegando na porta de sua residência, ele espera esse pai de família entrar em sua residência para continuar o patrulhamento. São coisas que a sociedade, que a população, não conhece.

Cinema DL – Elias, você bancou toda a produção do documentário que custou R$ 120 mil. É difícil conseguir patrocinadores para documentários no Brasil?
Elias Junior –
Sim. Eu estou há quatro anos participando de todos os editais da Agência Nacional de Cinema para a produção de um longa-metragem, mas eu não consigo. O patrocinador fica com medo de sofrer algum tipo de represália do crime organizado, isso os pequenos. Os grandes não querem patrocinar nenhum filme que tenha conotação de violência, mas patrocinam “Salve Geral” (longa de 2009 sobre o PCC); o próprio “Tropa de Elite” (2007), o primeiro, que mostra a polícia fazendo a justiça com as próprias mãos; “Carandiru” (2003), Cidade de Deus (2002). Então, a gente vê que está tendo uma barreira grande do governo federal, estadual e municipal em relação aos editais. É muito difícil quando você usa o nome da ROTA para qualquer tipo de trabalho que necessite de captação de recursos.

Cinema DL – Há outros fatores que impedem o patrocínio de filmes como o seu?
Elias Junior –
Num primeiro momento eu pensei: puxa, não tive uma boa aceitação do meu projeto porque ele não estava bem acabado. Por outro lado, a gente vê que o projeto está bem estruturado. Só que existe uma meia dúzia de produtores que fazem parte do meio, alguns são até diretores que participam da Agência Nacional de Cinema. Então, poucos produtores são beneficiados. Os pequenos quase não têm chance no mercado. Hoje, se você quiser produzir um longa-metragem com o apoio de uma grande produtora, você tem que ser sócio dela. Então, é um mercado muito ingrato. As leis de incetivo fiscal já começam erradas. Por que? Só pode patrocinar uma empresa que tem no seu contrato social o lucro real em forma de contrato, ou seja, só as multinacionais. A pequena empresa não pode ter incentivo fiscal para deduzir do imposto de renda. Por que? As pequenas e médias empresas não têm direito à dedução. São leis que estão totalmente atrasadas.

Cinema DL – Você ainda pretende produzir o longa-metragem sobre a ROTA?
Elias Junior –
O documentário é uma porta para que pequenos, médios e grandes empresários vejam o outro lado da história. “A Verdadeira História da Rota” é só a primeira parte de uma trilogia. O segundo episódio da ROTA é focado na história do Carandiru, onde 111 detentos morreram em confronto com a ROTA. Eu tive a oportunidade de participar do julgamento ao lado da Defensoria. Então, eu não ouvi os policiais, eu vivi aquele momento. Passei uma semana acompanhando todos os policiais que foram condenados a 624 anos de prisão sem que tivessem uma defesa. Ao meu ver, o julgamento foi totalmente equivocado. Então, eu posso contar essa história a partir do depoimento dos policiais.

Cinema DL – Quando será apresentado o segundo episódio do documentário?
Elias Junior –
Falta entrevistar um desembargador, um juiz e um promotor. Eu tenho as gravações das principais chaves que são os comandantes que deram início (à operação) lá no Carandiru, tenho os detentos, o perito. Eu acredito que em meados de novembro eu terei esse documentário já pronto para apresentar.

Cinema DL – Qual será o tema do terceiro episódio?
Elias Junior –
A terceira parte do documentário conta a história da ROTA nos dias de hoje, a influência política que sofre. A ROTA é usada como massa de manobra. A sociedade é quem perde. É uma polícia que tem um combate duro contra o crime organizado. Eu tive a oportunidade de acompanhar inúmeras ocorrências na ROTA, das mais simples às mais graves. Você não sabe o quanto um policial sofre para pertencer àquela unidade. São 700 policiais que merecem ficar lá. É um treinamento diuturnamente forte. Um policial é obrigado a se sujeitar a várias situações para que ele seja digno de ostentar o braçal de ROTA que é o símbolo da ROTA no braço direito.

Cinema DL – Quando o terceiro episódio será apresentado?
Elias –
A nossa previsão é para o começo de fevereiro.