Do hip hop nasce a Procuru no Dique da Vila Gilda

"Enxerguei um caminho para minha vida através do hip hop. O objetivo da ONG é levar para os jovens as oportunidades que eu e muitos não tiveram”

A história do assistente social Leandro Valença, 33 anos, se confunde com a de muitos jovens brasileiros. Ele cresceu nos becos e vielas da maior favela em palafitas do País, o Dique da Vila Gilda, em Santos, e viu a miséria e os caminhos tortos da vida andar lado a lado. No hip hop, o jovem encontrou o apoio que precisava para ter um futuro diferente. Em 2008, da vontade de transformar a realidade de sua comunidade nasceu a Projeto Cultura de Rua (Procuru).

“Enxerguei um caminho para minha vida através do hip hop. Há poucas oportunidades na comunidade e o objetivo da ONG é levar para os jovens as oportunidades que eu e muitos não tiveram”, disse Valença. A entidade realiza trabalho cultural e de capacitação profissional junto às comunidades do Dique da Vila Gilda e Morro do Tetéu, em Santos, e no Parque das Bandeiras, em São Vicente.

Crédito: Luiz Torres/DL

Os quatro elementos do hip hop (DJ, MC, break e graffiti) acompanham os trabalhos desenvolvidos pela Ong. Segundo Valença, o movimento é uma importante ferramenta de transformação social. “No Brasil, o hip hop desenvolve ações dentro das comunidades e mostra um caminho por meio da arte e da cultura”. As primeiras atividades desenvolvidas pela instituição foram ligadas ao movimento cultural.

A Procuru é mantida por meio de contribuições e parcerias. Na sede da entidade são ministrados cursos de Informática Básica e Excel avançado em parceria com a Fundação Settaport. Mais de 750 pessoas já foram capacitadas desde 2008. A instituição também oferece atendimento social e orientação jurídica gratuita.


“Nos atendimentos sociais a maior procura tem sido em relação à falta de comida e desemprego. A gente realiza o cadastro da família e as encaminham de acordo com a demanda apresentada”, explicou o presidente da entidade.

O atendimento social é realizado todas as terças-feiras, a partir das 10 horas. Já a orientação jurídica acontece as sextas-feiras, também a partir das 10 horas.

Intercâmbio

As experiências que vivencia a frente da Procuru são compartilhadas em outras comunidades. Um intercâmbio realizado nas favelas de Heliópolis, em São Paulo, e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, regiões com características semelhantes ao do Dique da Vila Gilda, proporcionou ao gestor social uma visão ampliada dos problemas que se depara no dia a dia e de como fazer para solucioná-los.

“Nós fomos até lá conhecer os projetos e eles vieram visitar o nosso trabalho. Houve troca de poesia, música, apresentações, dificuldades e caminhos para superar os obstáculos. O intercâmbio é riquíssimo, pois ambas as comunidades sofrem com os mesmos problemas e com estigmas da violência”, destacou Valença.

Atualmente a Procuru atende direta e indiretamente 500 pessoas. No início, o assistente social não imaginava que o trabalho desenvolvido pela entidade tomaria grandes proporções. “Era praticamente impossível imaginar que a Procuru se tornaria referência, pois só tínhamos força de vontade e quase nenhum recurso. É muito gratificante ver os resultados do nosso trabalho. Estamos na fase pé no chão, mais maduros, mas com a mesma vontade que nos fez chegar até aqui”, disse Valença.