Papo de Domingo: “Percebemos quão falho é o nosso sistema educacional”

Estudantes que estavam na linha de frente das três ocupações escolares na Baixada Santista falam sobre o ato e seus desdobramentos

Nos dois últimos finais de semana, o Diário do Litoral deu voz a todos os envolvidos – direta ou indiretamente – nas ocupações escolares da Baixada Santista. Após entrevista com o diretor regional de Ensino, João Bosco e a diretora executiva do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Sonia Maciel, o DL conversou com cinco dos estudantes que estavam na linha de frente das ocupações na Baixada Santista.

Eles têm de 16 a 19 anos e são alunos da Rede Estadual de Ensino. Ingrid Ramos e Johni Guedes, da EE Cleóbulo Azevedo Duarte; Pablo Bailoni e Wadson Dias, da EE Azevedo Júnior e Sandy Esther, da EE Renê Rodrigues de Moraes ocuparam as unidades em que estudam, em protesto contra a reorganização escolar proposta pelo Governo Alckmin.

Dois deles terminaram o ciclo e não retornarão aos bancos escolares em 2016; dois seguem para o último ano do Ensino Médio e um para o segundo. Todos são unânimes em dizer que o ato provocou mudanças significativas em suas formas de enxergar o mundo. Eles afirmam que as ocupações tiveram início em protesto contra a reorganização, mas ganharam um novo sentido após a vivência e trocas de experiências durante o período.

Diário do Litoral – Das três escolas ocupadas na Baixada Santista, apenas a EE Renê Rodrigues de Moraes, no Guarujá, constava na lista de unidades que seriam fechadas com a reorganização. Por quais motivos a EE Cleóbulo Amazonas Duarte e a EE Azevedo Junior, em Santos, foram ocupadas?

Ingrid Ramos – Em outubro ouvimos um boato de que o Cleóbulo estaria na lista de escolas que seriam fechadas na reorganização. Eu comecei a organizar alguns atos com a galera do ensino fundamental e médio, um deles na Praça das Bandeiras, no Gonzaga, no dia dos professores. Depois disso o João Bosco (diretor regional de Ensino) marcou duas reuniões com a gente e tirou o Cleóbulo da lista, mas a movimentação continuou pelas outras unidades da Baixada que passariam pelo processo. Ocupar o Cleóbulo foi simbólico, pois a escola abriga também a Diretoria Regional de Ensino (DRE).

Johni – Na verdade, o fechamento do Cleóbulo não era oficial, mas a escola já estava sendo fechada gradativamente. O objetivo era que em dois anos o ensino fundamental fosse eliminado.
Pablo – O Azevedo também não constava na lista oficial, mas o Ensino Médio estava sendo eliminado de forma gradativa. Todos os estudantes seriam transferidos para o Primo Ferreira que já é uma escola superlotada. Ocupamos em apoio aos outros movimentos e ao Cleóbulo.

Sandy – Nossa ocupação começou com o único objetivo de que o Renê não fosse fechado. Durante o movimento nos aprofundamos na questão da reorganização escolar e percebemos o quanto ela seria ruim. Fechar duas escolas no Guarujá, onde já não existem tantas unidades, seria um crime. Depois que a nossa ocupação começou que fomos buscar apoio do pessoal das outras escolas, para unir forças. No começo estávamos sozinhos e foi coincidência a ocupação acontecer no mesmo dia que a Azevedo.  

DL – A reorganização escolar foi revogada pelo governador Geraldo Alckmin no dia 5 de dezembro. No entanto, as ocupações seguiram por mais um mês. Por quais motivos as escolas não foram desocupadas após a revogação?

Johni – No meio da ocupação nós começamos a perceber o quão falho é o nosso sistema educacional. Continuamos a ocupação por conta de tudo o que verificamos que estava errado. Disso surgiu uma carta de reinvindicação, entregue para o diretor regional de ensino, que convocou uma reunião. Com a carta em mãos, ele perguntou porque a gente continuava com o movimento, sendo que os motivos estavam explícitos ali.

Ingrid – As ocupações continuaram porque ficamos esperando o retorno do documento. Outro motivo foi que a reorganização foi revogada e não cancelada. Percebemos que a ocupação acabou sendo bem maior do que um ato contra a reorganização e sim uma luta contra o sistema educacional atual. Parece um sistema carcerário, onde a gente chega, entra e fica seis horas tendo aulas rasas, baseadas em apostila. Não temos um debate de temas atuais em sala de aula, o que inclusive foi uma das reivindicações da carta entregue. A experiência de debate em roda, sobre assuntos relevantes, nós tivemos nas aulas voluntárias que aconteceram durante a ocupação.

DL – Mas essas questões vão além da reorganização. Quais eram os problemas das escolas antes do anúncio?

Johni – Estrutura precária, falta de atividades culturais, comunicação falha e constante ausência de professores. No Cleóbulo, por exemplo, passamos muito tempo reclamando de goteiras nas salas de aulas do andar superior e ninguém fazia nada. Quando a Diretoria Regional de Ensino invadiu o prédio tudo foi solucionado rapidamente e até instalaram ar-condicionado.

DL – Vocês estavam a frente do movimento na Baixada Santista. Como são menores de idade, qual era o posicionamento dos seus pais ou responsáveis em relação à ocupação?

Sandy – No Renê os pais apoiaram de forma massiva. Na verdade, após o anúncio da direção de que a escola seria fechada, eles se reuniram dentro da escola para propor sugestões. Eram em média 150 pais que apoiaram e ajudaram os alunos durante todo o processo.

Johni – Minha mãe estava na linha de frente junto comigo o tempo todo. Ela cozinhou, limpou e dormiu na escola. Levantou o debate sobre a reorganização e esteve do meu lado em todos os momentos. Quando diziam que era tudo baderna e que a gente estava depredando a escola, ela reagia, pois estava ciente e acompanhando tudo o que acontecia.

Ingrid – Meu pai me apoiou sempre, mas em alguns momentos ele ficou preocupado, principalmente por que eu fui a pessoa que mais dei as caras pela ocupação do Cleóbulo. Depois da revogação o movimento enfraqueceu, pois as pessoas não entenderam as nossas outras pautas e pensaram que ia virar bagunça. Nessa época, meu pai ficou preocupado, mas tudo foi resolvido no diálogo.

DL – Como era a rotina dentro das escolas durante as ocupações?

Johni – Desde o começo fomos muito organizados e todos os dias de manhã fazíamos um cronograma diário de atividades. Dividimos as pessoas e organizamos Grupos de Trabalho (GT): segurança, limpeza, atividades, alimentação e comunicação. Organizávamos a alimentação diária e as datas e horários das aulas abertas ministradas pelos professores voluntários. Tivemos aulas de fotografia, história, sociologia, filosofia, capoeira, dança, texto e teatro.

Pablo – No Azevedo essa divisão por GT não funcionou, mas as coisas caminharam de outra forma. A galera percebia o que precisava ser feito e cada um se mexeu da forma que pôde. No Azevedo, além das aulas, fizemos um sarau cultural chamado “Som da Ocupação”. Convidamos artistas que apoiaram o movimento para deixarem suas marcas na escola. Nós pintamos a parede, desentupimos bueiros e passamos argamassa.

Sandy – No Renê, como nossa escola era mais distante, não conseguimos tantos professores voluntários, mas arrumamos o que conseguimos e pintamos parte da escola.

DL – Em entrevista ao DL, o diretor regional de Ensino estimou um prejuízo de R$650 mil reais em relação à depredação e furto de equipamentos. Esse valor se justifica?

Ingrid – O valor é impossível. Até parece que a gente tirou o prédio do lugar. Acho que nem se pegassem todas as escolas ocupadas no Estado inteiro não daria esse valor do que eles chamam de “prejuízo”.

Johni – Se pararmos para pensar, essa quantia significa mais de meio milhão de reais. É muita coisa. Mesmo considerando as invasões que aconteceram no Cleóbulo, que fugiram completamente do nosso controle, o valor total não é esse. Muito foi dito sobre o sumiço de alguns tablets. Supondo que um computador completo seja R$2 mil. Pensa em quantos computadores são necessários para chegar neste valor? Eles contaram como prejuízo a merenda da escola, que seria usada, de uma forma ou outra, pelos alunos. Mesmo contando isso, não chega de forma alguma a esse valor.

Pablo – Li que parte desse dinheiro, cerca de R$50 mil, são referentes aos danos no Azevedo. O engraçado é que esse valor foi divulgado antes mesmo que eles entrassem na escola para averiguar a situação. Como eles podiam falar de dano se nem no prédio eles tinham entrado?

DL – Vocês citaram o furto de tablets durante o período em que os alunos ocuparam o prédio. No último dia de ocupação também houve um outro furto. Vocês não viram nenhuma movimentação estranha na escola nessas ocasiões?

Johni – No dia do último furto eu estava dormindo na escola e fui acordado pelos outros alunos, que falaram que a caseira tinha chamado a polícia porque tinha gente roubando no andar de cima. Eles entraram e saíram pelo lado externo, pois a grade estava quebrada. Dia desses, indo para reposição, vi que estavam arrumando a grade. Ou seja, precisou acontecer um furto para darem atenção aos problemas estruturais do colégio. Do mesmo jeito que entraram durante as ocupações para roubar poderiam ter entrado antes para fazer qualquer outra coisa com os alunos.

Ingrid – A gente admite a perda do controle no Cleóbulo, mas os furtos e a influência da mídia sobre a questão acabou ofuscando todos os lados positivos. Tudo de ruim que foi divulgado pela mídia impressa, televisiva e digital deslegitimou o movimento. A palavra tem poder, a organização do texto tem poder e a forma como as coisas são transmitidas tem muito poder. No começo, por exemplo, diziam “invasão”, que significa tomar espaço de algo que não é seu. “Ocupação” é entrar em um espaço que é seu por direito para reivindicar algo. O Cleóbulo não foi desocupado por conta dos furtos. No dia dos furtos, a gente já estava desocupando.

DL – O diretor disse também que os alunos vão responder pelos atos de vandalismo. A Apeoesp alegou que daria suporte jurídico aos estudantes. Como está a situação? Vocês receberam alguma intimação formal?

Johni – Ainda não recebemos nada oficialmente. Apenas boatos de que eu e a Ingrid vamos responder por esses R$ 600 mil. Algumas pessoas também disseram que seríamos expulsos da escola.

Sandy – No Renê está tranquilo, só algumas ameaças informais de que seríamos processados por termos comido a merenda.

DL – Um outro ponto citado foi que as ocupações não foram movidas por estudantes e que teve influência de partidos e sindicatos.

Ingrid – As ocupações foram definidas e conduzidas única e exclusivamente pelos estudantes. Contamos com o apoio de todos que queriam ajudar. Por mais que algumas das pessoas que nos ajudaram tenham vestindo uma camisa para divulgar o sindicato, eles estavam ajudando a gente, apenas. E essa ajuda veio de várias formas, através da doações de alimentos, materiais e até mesmo apoio jurídico.

Pablo – Contamos com o auxílio de sindicatos sim. Como de moradores e professores também. Se alguém tinha algum interesse nisso, aí não é com a gente. Nós precisávamos desse apoio e sabíamos qual era o nosso limite. Se alguém te oferece ajuda e você precisa, você não vai negar.

DL – Qual a lição que ficou da ocupação?

Jhoni – Foi uma experiência política e de convivência inexplicável. Criamos laços familiares durante esses 40 dias. Aprendi que todos são iguais. Para mim, simbolizou a transição de adolescente para adulto.

Ingrid – Foi a experiência política e social mais importante da minha vida. Vivi esse momento de forma intensa. Aprendi a respeitar as opiniões e a trabalhar em coletivo.

Sandy – Trabalhar em conjunto! Sem dúvida alguma. Agora estou saindo do ensino médio e tenho certeza de que usarei no mundo fora da escola muitas das coisas que aprendi durante esses dias.

Waldir – Foi algo muito bom. Sempre me interessei por política e tive a oportunidade de viver, por alguns dias, em uma democracia.

Pablo – O que mais me fascinou foi que o movimento foi gigante e feito por estudantes. Acho que a vivência, o conhecimento do outro e principalmente o autoconhecimento despertado nesse período valeu demais. Esse prezar pela escola, sentar em roda, interagir e propor mudanças no coletivo. Isso fica para a vida.