Ato na Praça Mauá clama pelo fim da impunidade

Movimento Mães de Maio, criado após o assassinato de jovens da periferia, participou de ato que relembra os dez anos da onda de violência que atingiu São Paulo

Movimento Mães de Maio, criado após o assassinato de jovens da periferia, participou de ato que relembra os dez anos da onda de violência que atingiu São Paulo

Na Praça Mauá lotada, debaixo do forte sol do meio-dia, uma pequena comitiva carregava cruzes de madeira, faixas e cartazes. Marcados com tinta, cada objeto continha o nome de um dos mortos do distante e sempre presente mês de  maio de 2006.

“Se você me perguntar como foi o dia em que o meu filho morreu, eu te digo que foi um dia igual a hoje. Foi hoje. Passaram dez anos e nada mudou. Nossos jovens continuam sendo assassinados nas periferias. Aquele mês de maio nunca acabou”, desabafa Débora Maria da Silva, organizadora do Movimento Mães de Maio.

Formado por mães e parentes de pessoas mortas ou desaparecidas durante a onda de atentados promovidos pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e a retaliação por parte da Polícia Militar, o movimento pede ­justiça para os crimes, que foram arquivados sem que os responsáveis fossem devidamente punidos.

Na tarde desta sexta-feira (6), as Mães de Maio se juntaram à integrantes de movimentos sociais e artísticos da Baixada ­Santista e protestaram dentro da programação do ‘Cordão da Mentira’, manifestação cultural crítica que usa ­intervenções artísticas para questionar problemas sociais.

Durante a manifestação, uma roda de capoeira foi montada e hinos entoados em memória às vítimas. Os organizadores da manifestação também colocaram cartazes nas escadarias da Prefeitura de Santos.

“O Estado mata em qualquer periferia do Brasil. Temos mães de todos os anos; mães de todos os meses. Precisamos lembrar dessa data, não para comemorar, mas para unir nossas vozes clamando por justiça”, finalizou Débora.

“Eu ouvi os tiros que mataram o meu filho”

Emocionada e vestida com uma blusa amarela do movimento, Elvira Ferreira da Silva, de 61 anos lembrou do dia de agosto de 2013 em que o filho Ricardo Ferreira Gama foi assassinado na porta de casa.

“Dois dias antes de morrer, meu filho foi torturado friamente por policiais após ter respondido uma ofensa em frente ao serviço. Os estudantes presenciaram a ação e defenderam o Ricardo. Ele não registrou B.O. por medo. Dia 2 de agosto, enquanto voltava para casa, ele foi assassinado. Eu ouvi os tiros que mataram o meu filho”, desabafou.

A morte do auxiliar de limpeza, que prestava serviços no Campus Baixada Santista da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), foi amplamente debatida na região.

Dona Elvira ainda aguarda por justiça. Ao lado das Mães de Maio ela conseguiu que o inquérito fosse instaurado como tortura, e não agressão. “Após a morte do meu filho entendi a dor dessas mães. Nunca vou esquecer aquele dia 2, quando precisei encher os baldes para lavar o sangue do meu próprio filho”, finalizou.

Data do protesto coincide com evento esportivo

A Prefeitura de Santos organizou – na mesma data, horário e local – um evento esportivo em comemoração à passagem da chama olímpica em Santos. Durante ambas as ações houve um princípio de confusão.

Para tentar inibir a manifestação, o volume da música do evento esportivo foi aumentado. No entanto, as atividades da Administração foram parcialmente suspensas após às 13h.

De acordo com o secretário de Esportes, Alcidio Michael Ferreira de Mello, o objetivo do evento era explicar a importância do fogo olímpico e como será o revezamento da tocha, que passará por Santos no dia 22 de julho.

“Infelizmente os organizadores (do protesto) não entendem que o esporte faz com que outros meninos não morram, uma vez que é um instrumento para tirar a molecada da rua. Fizeram um protesto justo em um momento errado. Lamentamos essa interrupção, mas não podemos esquecer que o esporte consegue parar guerras e é mais forte que qualquer outra coisa”, destacou.

De acordo com Débora Maria, um ofício foi entregue para a Administração informando sobre o ‘Cordão da Mentira’.

“Não foi combinado. Nossa ação está marcada há semanas. Não temos intenção alguma de atrapalhar as atividades já agendadas, mas acabou sendo um bom contraponto, uma vez que as investigações em 2006 não foram adiante no mesmo ano pois o Brasil estava no clima da Copa do Mundo. Agora mesmo, por conta das Olimpíadas, a milícia está matando os jovens dos morros no Rio de Janeiro. Sei disso porque fui até lá ajudar as mães nessa luta”.