Saúde: desafio constante em São Vicente

Superlotação nas unidades de saúde e número insuficiente de leitos são problemas frequentes na cidade

Problema recorrente, a lotação das recepções de todas as unidades de saúde visitadas pelo Diário do Litoral é a imagem que se destaca durante a elaboração deste Raio-X. Segunda cidade mais populosa da Baixada Santista, São Vicente possui 355.542 habitantes. No entanto, a quantidade de equipamentos que atendem ao SUS na cidade não conseguem suprir a demanda.

Anunciado com entusiasmo pelo ex-ministro da saúde Arthur Chioro em 2014, o sonho dos vicentinos da construção de um Hospital Regional com 400 leitos de internação está longe de sair do papel. Na ocasião, o Governo Federal se comprometeu a ceder 50% da verba destinada para a construção do hospital, compra de equipamentos e custeio da unidade. No entanto, o Governo do Estado não apoiou a empreitada.

Com a negativa, o Hospital Municipal de São Vicente, antigo CREI, seguiu atendendo uma demanda maior que sua capacidade de funcionamento. A situação fica ainda mais complicada com as constantes paralisações, como a que ocorreu em novembro passado, quando os médicos concursados que prestam serviços no local entraram em estado de greve, atendendo apenas pacientes em casos de urgência ou emergência.

Durante visita da Reportagem ao hospital na última semana, mais de 60 pessoas aguardavam por atendimento na recepção principal. De acordo com a dona de casa Vilma Cavalcante, o número estava pequeno em comparação com outros dias. “Evito ao máximo vir até aqui, pois sempre que venho a espera é longa. E não adianta reclamar ou culpar os profissionais, pois o que falta é gente. Na parte da tarde sempre tem apenas um médico dando plantão”, desabafou.

No setor de internação, a situação era ainda pior. A visão do espaço foi obstruída por seis pacientes que aguardavam por leitos e recebiam medicação em macas improvisadas no corredor.

Os problemas no equipamento não param por aí. Em crise, a Prefeitura anunciou no início de junho deste ano, a contratação da Organização Social (OS) Associação Brasileira de Beneficência Comunitária (ABBC), que tem sede no município de Bragança Paulista, para atuar no antigo CREI. O valor do contrato é de R$ 12 milhões anual – o que corresponde a R$ 1 milhão por mês.

Na ocasião, o Diário do Litoral questionou a Prefeitura sobre a necessidade de contratação de uma OS para a realização de serviços no hospital ao invés de utilizar servidores públicos. A Administração Municipal informou que houveram concursos públicos, no entanto as vagas em questão não puderam (conseguiram) ser preenchidas.

Respostas

Sobre os demais problemas apontados, a Administração informou que o Hospital Municipal dispõe de 84 leitos gerais de internação de UTI. De acordo com a relação leito x habitantes, São Vicente precisaria de 180 leitos no total. A Administração ressaltou ainda que aguarda retorno da Secretaria do Estado da Saúde sobre custeio dos leitos do Hospital Olavo Horneaux de Moura, no Bairro Humaitá (ver página ao lado).

A Prefeitura destacou ainda que a população está sendo orientada sobre a implantação da Classificação de Risco no Pronto Socorro do Hospital Municipal. O objetivo do projeto é justamente favorecer os atendimentos emergenciais e classificar os quadros dos demais atendimentos obedecendo critérios de risco de acordo com parâmetros do protocolo do Ministério da Saúde.

A Administração destacou que a rede pública de saúde está registrando substancial no número de atendimentos frente ao número de munícipes que referem perda do convênio médico além da crise pela qual vem passando o Hospital Municipal de Cubatão.

Obras do AME ainda não tiveram início

As obras do Ambulatório Médico de Especialidades (AME) Mais, que deveriam começar em março, dentro do Hospital São José, ainda não tiveram início. A unidade, que além de serviços ambulatoriais, clínicos e consultas, pode fazer cirurgias de baixa e média complexidades deve atender todos os municípios da região.

De acordo com o deputado estadual Caio França (PSB), que intermediou as negociações entre a Secretaria da Saúde e o hospital, ajustes pontuais estavam sendo realizados no contrato. “A obra deve começar entre o final de julho e agosto e terá duração de 12 meses. O secretário de Saúde do Estado, David Uip, garantiu o início dos trabalhos durante visita à região na semana passada”, destacou.

O AME Mais oferecerá consultas com médicos em diferentes especialidades, exames de apoio diagnóstico, cirurgias de média complexidade e internação sob regime de hospital dia. A capacidade do serviço será definida no projeto de abertura da unidade, com base na demanda regional por serviços ambulatoriais no SUS.

Hospital Municipal do Humaitá: longe do funcionamento pleno

Inaugurado sem condições de uso em setembro de 2012, o Hospital Municipal Doutor Olavo Hourneaux de Moura ainda não funciona de forma plena. O Diário esteve nas instalações e constatou que várias salas estão fechadas e desocupadas. A recepção também está completamente vazia, embora a porta de entrada esteja aberta e o equipamento possua placas de sinalização.

O Hospital tem capacidade para 40 leitos e está integrado ao Pronto-Socorro, localizado na Rua Alfredo Schammas, s/n. Possui 786 metros quadrados de área construída e é composto por 16 quartos, sendo um para isolamento, a fim de internar as pessoas com suspeita de doenças infectocontagiosas, recepção, sala de espera, posto de enfermagem, almoxarifado, cozinha com despensa e recinto para expurgo.

Contraste

Enquanto as salas do hospital permanecem vazias, o Pronto-Socorro está lotado. Aproximadamente 40 pessoas aguardavam na recepção por atendimento e havia apenas um médico de plantão. A dona de casa Elizabeth Silva aguardava há mais de uma hora por uma consulta de emergência para o filho de 3 anos.

“É sempre assim. Quando não temos escolha e precisamos ir até o hospital, sabemos que vamos passar o dia aqui. Só não entendo o motivo de aqui ao lado (no hospital) ter tanto quarto vazio e uma estrutura tão boa se não é para fazer atendimento”, desabafou.

As paredes do P.S. estão repletas de infiltrações, tornando o espaço de saúde uma ameaça para os pacientes com problemas respiratórios. O Diário não teve acesso à sala dos médicos, mas os pacientes escutados pela Reportagem confirmaram que a situação se repete nesses ambientes.  

Em nota, a Prefeitura de São Vicente informou que a aguarda posição da Secretaria de Saúde do Estado para que o Hospital Municipal Doutor Olavo Hourneaux de Moura possa funcionar de forma plena.

Sobre o Pronto-Socorro, informou que a unidade encontra-se em obras de ampliação e adequação para receber a UPA tipo III e as reformas necessárias da área existente está contemplada no cronograma de execução.

UPA da Náutica não tem previsão de entrega

A estrutura está parcialmente finalizada, mas o início das atividades na Unidade de Pronto-Atendimento 24 horas (UPA 24 horas) da Cidade Náutica ainda está longe de acontecer. O equipamento estava previsto para o primeiro bimestre do ano passado.

Localizada na Praça da Imigração Japonesa, no mesmo local onde antes havia o PS da Cidade Náutica, as obras da UPA tiveram início no segundo semestre de 2014. De acordo com a secretaria de Saúde, a abertura da unidade para a população depende da compra de equipamentos, o que ainda não tem data certa para acontecer.

Na ocasião, em resposta ao Diário do Litoral, o Ministério da Saúde garantiu que a UPA 24 horas, localizada no bairro Cidade Náutica, já recebeu toda a verba destinada à construção da unidade, totalizando R$ 484 mil, e que a compra de equipamentos é de responsabilidade do gestor local. Para isso, a pasta vai repassar o valor de R$ 599 mil. O órgão ressaltou que a solicitação dos recursos segue trâmite interno para pagamento.

Questionada, a Prefeitura de São Vicente informou que as obras da UPA Náutica estão finalizadas e a inauguração depende da capacidade instalada – equipamentos e provimento de Recursos Humanos.