Domingos Montagner: já não é Santo o eterno galã

O protagonista da novela "Velho Chico" morreu nesta quinta-feira (15), afogado no rio São Francisco; ator fez carreira no circo, no teatro, na televisão e no cinema

A linguagem cinematográfica de “Velho Chico”, o ocre carregado nas cenas que nos transporta para dentro do sertão árido da novela, o texto poético de Benedito Ruy Barbosa, a direção memorável de Luiz Fernando Carvalho, o talento, a beleza e a composição rústica do personagem Santo levaram Domingos Montagner ao auge do sucesso em sua curta carreira na televisão, que durou apenas cinco anos. Numa triste coincidência, foi também no velho Chico, o velho rio São Francisco, pano de fundo desta novela das 21 horas, da Rede Globo, que Montagner selou o seu destino. Ele era o protagonista da produção ambientada na região Nordeste do País.

O ator morreu afogado na tarde desta quinta-feira, dia 15, após mergulhar de uma pedra, no rio São Francisco, no município de Canindé de São Francisco, durante uma folga das gravações de Velho Chico. Ele estava acompanhado da atriz Camila Pitanga, seu par romântico na novela. Montagner tinha 54 anos.

Levado pela forte correnteza do rio, ele não resistiu. Seu corpo foi encontrado por mergulhadores do Corpo de Bombeiros de Sergipe, a 18 metros de profundidade, preso nas pedras, a cerca de 320 metros do local onde havia mergulhado.


Além de Velho Chico, Montagner também pode ser visto na telona, na comédia “Um Namorado para Minha Mulher”, de Julia Rezende. No filme, que estreou nos cinemas no último dia 1º de setembro, ele interpreta o excêntrico Corvo, um homem contratado por Chico (Caco Ciocler) para ser o amante de sua esposa (Ingrid Guimarães).    

Trailer de Um Namorado para Minha Mulher”, com Domingos Montagner:

Nascido em São Paulo, Montagner residia com a família em Embu das Artes, no Interior paulista. Ele deixa a mulher, a atriz Luciana Lima, com quem era casado há 15 anos, e três filhos.

Segunda morte em Velho Chico

Montagner é o segundo ator do elenco de Velho Chico a morrer neste ano. Em abril, o ator Umberto Magnani morreu aos 75 anos em decorrência de um Acidente Vascular Encefálico (AVE). Magnani interpretava o padre Romão e foi substituído às pressas por Carlos Vereza, que assumiu o papel de padre Benício na trama.

(*) Carreira: circo, teatro, TV e cinema

Santo, personagem de “Velho Chico”, marcou a 12ª participação de Montagner na televisão, que apresentou o ator no seriado “Mothern”, do GNT, em 2008, e, dois anos depois, como Carlos, amante da protagonista vivida por Lília Cabral na minissérie “Divã”, da Rede Globo.

Em 2011, Montagner recebeu seu primeiro papel em uma novela, já com destaque, como o cangaceiro Herculano em “Cordel Encantado”. Depois, transformou-se em rosto recorrente na emissora, atuando em títulos como “Salve Jorge” e “Sete Vidas”.
O ator, que fazia questão de se afirmar palhaço, começou a carreira estudando com a atriz Myriam Muniz e, em seguida, no Circo Escola Picadeiro. Foi lá que conheceu Fernando Sampaio, com quem criou o La Mínima, em 1997.

Trailer do suspense inédito “Através da Sombra”, de Walter Lima Jr:

O espetáculo “A Noite dos Palhaços Mudos”, inspirado em uma história de Laerte, rendeu-lhe um prêmio Shell de melhor ator em 2008.

A dupla de palhaços também originou o coletivo Circo Zanni, do qual Montagner era diretor artístico.

O ator estreou no cinemas em 2012, fazendo uma participação no longa “Gonzaga – de Pai Pra Filho”, de Breno Silveira, sobre o rei do baião e seu filho.

O papel como coronel Raimundo no longa de Silveira rendeu a ele a primeira indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro – ele concorreu na mesma categoria por interpretar Milton em “A Grande Vitória” (2015).

No mesmo ano, ele deu vida ao delegado Espinosa, personagem criado pelo escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza no livro “Espinosa Sem Saída”, na adaptação televisiva “Romance Policial – Espinosa”, do GNT.

Montagner estava escalado para o elenco de “O Que Nos Une”, trama global das 23h com previsão de estreia para abril de 2017.

No cinema, Montagner estrelou os longas-metragens “Através da Sombra” (2015), de Walter Lima Jr., que ainda não tem previsão de estreia, “Vidas Partidas” (2016), de Marcos Schechtman, lançado em agosto, “De Onde te Vejo” (2014), de Luiz Villaça, lançado em abril último, e “Um Namorado para Minha Mulher”, de Julia Rezende, que está em cartaz nos cinemas.


(*) Depoimento de Camila Pitanga

Em depoimento, a atriz Camila Pitanga contou que nadava com o ator quando sentiu uma forte correnteza e se segurou em uma pedra. Ao perceber que o colega estava sendo levado, ela tentou agarrar sua mão por duas vezes. Montagner, então, afundou e voltou à superfície duas vezes, depois desapareceu. Ela gritou por ajuda aos que estavam na orla do rio, chamada de Prainha.

Os dois haviam almoçado pouco antes no restaurante Caçuá, próximo ao local. De manhã, gravaram cenas para a novela. As polícias civil e militar, o Corpo de Bombeiros e o Grupamento Tático Aéreo foram acionados e mobilizaram inicialmente 50 profissionais para as buscas, que incluíram dois helicópteros.

A atriz foi resgatada por uma lancha. O corpo de Montagner foi encontrado cerca de três horas e meia depois.
A novela estava nas cenas finais e Montagner deveria voltar ao Rio de Janeiro neste domingo (18).

Novela
A equipe da Globo se preparava para deixar a região. O último capítulo deveria ir ao ar no próximo dia 30. Não se sabe agora que rumos a novela tomará. A novela é dirigida por Luiz Fernando Carvalho e escrita por Benedito Ruy Barbosa.

Na trama, o personagem de Montagner vivia um agricultor que lutava contra coronéis da região. Em um dos embates, ele tomou três tiros e sumiu nas águas do São Francisco. Foi dado como morto, mas reapareceu numa aldeia, onde foi tratado por índios.

(*) Com informações da Folhapress