Uma das queixas mais comuns apresentadas por pais de crianças e adolescentes é o mau desempenho escolar. O que muitos não sabem é que um boletim ruim pode ter ligação com os transtornos de aprendizagem, que afetam cerca de 6% das crianças em idade escolar no mundo.
De acordo com a psicóloga Thais Quaranta, sócia-diretora da clínica especializada em tratamentos infantis NeuroKinder, em São Paulo, “é preciso investigar a causa, que pode estar relacionada a algum transtorno da aprendizagem ou ser apenas uma dificuldade de aprendizagem”.
Os principais transtornos de aprendizagem são: Dislexia (afeta a capacidade de fluência na leitura das palavras); discalculia (dificuldade no aprendizado dos números e das operações aritméticas); Disgrafia (disfunção no desenvolvimento do ato de escrever letras ou números); Disortografia (transtorno de aprendizagem que dificulta a escrita) e transtorno de aprendizagem não verbal (dificuldades na coordenação motora, na cognição, na percepção espacial e nas habilidades sociais. É o mais raro dos transtornos).
Diário do Litoral – Estamos praticamente no fim do ano letivo. Caso os pais tenham diagnosticado os filhos com algum transtorno de aprendizagem a essa altura, ainda é possível reverter o quadro, ou seja, melhorar o desempenho da criança para que complete o ano letivo de forma satisfatória?
Thaís Quaranta – Acredito que nunca é tarde para aprender. Mesmo que o tratamento não seja suficiente para completar o ano letivo de forma satisfatória, a melhora no desempenho e o suporte recebido pela criança vão auxiliar no desenvolvimento de sua autoconfiança e, como consequência, o ano seguinte será mais motivador.
Diário – Como é feito o diagnóstico?
Thaís – A escola, na maioria das vezes, é quem levanta a hipótese de que há alguma alteração na aprendizagem da criança. Os responsáveis são informados e orientados a procurar o médico pediatra/neuropediatra, que encaminha a criança para o profissional ou a equipe interdisciplinar que irá investigar as causas das dificuldades escolares. As dificuldades de aprendizagem são sintomas provenientes de diversos tipos de transtornos ou, até mesmo, de problemas na dinâmica familiar ou escolar.
Os transtornos de aprendizagem, diferente da dificuldade de aprendizagem, são alterações neurobiológicas, que envolvem um padrão abaixo do esperado para a idade em determinadas habilidades acadêmicas. Por isso, a avaliação interdisciplinar, envolvendo neuropediatra, neuropsicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo, dentre outros, é ideal para o diagnóstico correto.
Hoje em dia, por causa da facilidade de acesso a informação, é comum alguns pais já levantarem hipóteses diagnósticas de acordo com o que viu na internet, por exemplo. Os profissionais que irão avaliar devem estar muito atentos ao conteúdo trazido por estes pais, para não enviesar a sua avaliação.
Diário – São receitados remédios?
Thaís – Não existem remédios para cura ou tratamento do transtorno de aprendizagem em si. No entanto, quando há sintomas associados, como desatenção, ansiedade e agressividade, o médico pode indicar a medicação de acordo com a necessidade individual.
Diário – Existem médicos que defendem a desmedicalização, principalmente quando se trata de crianças. Em quais casos, de fato, remédios são imprescindíveis?
Thaís – Vamos lembrar que a medicação, nestes casos, tratam os sintomas (efeitos) e não as causas do problema. A meu ver, tudo depende de qual o impacto dos sintomas na vida da criança e quais seriam os ganhos possíveis com determinada medicação. De qualquer forma, o uso de medicação não exclui a necessidade de se trabalhar as dificuldades e limitações da criança com terapias adequadas. Quando há uma inter-relação entre o médico e o(s) terapeuta(s), fica muito mais fácil direcionar o melhor tratamento, seja ele com ou sem a medicação.
Diário – Dos principais transtornos de aprendizagem citados, qual seria o mais grave e por quê?
Thaís – A gravidade dos transtornos de aprendizagem pode ser classificada como: leve, moderada ou grave. Creio que o transtorno mais grave é aquele que causa maiores prejuízos à criança, podendo ser qualquer um deles. Os casos mais difíceis de serem tratados são os que há comorbidades, ou seja, mais de um transtorno ou doença ocorrendo ao mesmo tempo.
Diário – Depois do diagnóstico, como os pais devem informar a escola?
Thaís – Geralmente, o profissional ou a equipe que finaliza o diagnóstico entrega aos pais um relatório com as informações relevantes sobre o processo avaliativo. Os pais podem entregar uma cópia a escola e, também, podem solicitar o contato com o profissional responsável para esclarecimentos, quando necessário.
Diário – Como os professores devem agir?
Thaís – Vejo que muitos professores tem buscado incrementar sua formação, ampliando o entendimento sobre os transtornos do neurodesenvolvimento. Isso é fundamental visto que temos maiores chances de ajudar uma criança quando entendemos suas dificuldades. Quanto maior o apoio que a criança tiver, melhores serão as possibilidades de superação. Os professores, entendendo os meios de aprendizagem da criança, podem buscar ferramentas e materiais que auxiliarão o seu trabalho.
Diário – É possível aprender em sala de aula comum ou é necessário um atendimento especial aos alunos nestas condições?
Thaís – Em alguns casos, é possível o aprendizado em sala de aula, principalmente quando as dificuldades são leves e a criança desenvolve estratégias úteis e eficientes. Em casos mais graves, faz-se necessário o auxílio de outros profissionais capacitados para tal. É muito comum essas crianças precisarem de ajuda extra em casa, com os pais, irmãos mais velhos, babás.
Diário – Como famílias em baixa renda devem proceder caso tenham crianças nestas condições?
Thaís – No setor público de saúde, é necessário passar com um médico da rede para que o paciente seja encaminhado para a terapêutica. Alguns passos já foram dados em direção ao suporte público para estas crianças, mas ainda há mudanças por vir.
Em casa, os pais podem ajudar os filhos não só acompanhando os estudos, mas também, reforçando cada conquista, por menor que seja. Muitas vezes, vejo pais mais exigentes tentando auxiliar o filho durante a tarefa de casa e as consequências acabam sendo desastrosas. Isso não acontece só pelo fato da criança ter um transtorno de aprendizagem, mas sim, pela dificuldade dos pais em entender melhor as características do transtorno, aceitá-las e tentar dar o auxílio e reforço adequados para suas conquistas. Assim, a criança desenvolverá maior segurança e maior confiança em si para lidar com suas dificuldades de modo mais eficaz.
