Mulher tem o filho assassinado no Natal e luto vira ajuda

Após assassinato do filho, na véspera de Natal, mulher cria projeto para atender crianças carentes


“Estava fazendo uma unha e apaguei por alguns segundos. Minutos depois o telefone tocou. Minha sobrinha disse apenas: vem para casa. Falei para as colegas de trabalho: o Léo faleceu”. Na tarde de 24 de dezembro de 2009, véspera de Natal, a cabelereira Eunice Castilho, 60 anos, recebeu a pior notícia de sua vida. Viu o corpo do filho, de 28 anos, morto a tiros, estendido no chão. Precisava mantê-lo vivo. Juntou forças para seguir em frente e, há seis anos, na mesma data, reúne em um grande café da manhã moradores de rua e famílias do Sambaiatuba, uma das comunidades mais precárias e carentes de São Vicente.

“Não faço isso para endeusar meu filho. Meu filho era terrível, mas era um ser humano maravilhoso. É uma forma de manter ele vivo. Me incomodava ver que depois de um tempo as pessoas já não lembravam mais dele. O silêncio mata. É mais fácil ser solidário do que sentir a dor do outro. Fui convidada pelas Mães de Maio para participar do grupo, mas não aceitei porque não ia resolver a minha dor. Não ia trazer ele de volta”, disse Eunice.

Leonardo, o segundo dos quatro filhos de Eunice, foi assassinado junto com outro homem na véspera do Natal. Estavam sentados ao lado de um bar, no Catiapoã, em São Vicente, quando o assassino desceu de um carro prata.

“O homem disse sai todo mundo. Ele queria o rapaz que estava ao lado do meu filho. Meu filho não saiu. Fui lá porque tinha que ver para acreditar. Ele morreu em uma data que marca para a vida toda. Não movi uma palha para saber quem foi que matou meu filho. Tenho certeza que o infeliz que apontou o gatilho sofre mais do que eu e vai ter que responder com Deus”, disse Eunice com os olhos embargados. Ele deixou um filho e a namorada grávida de uma menina, que hoje tem seis anos.

Recomeço

Eunice trabalhava em um salão de beleza e devido ao período de festas estava com a agenda lotada. Enterrou o filho no domingo de Natal e voltou a trabalhar na segunda-feira. Não parou um segundo. Uma semana após o assassinato foi convidada a receber o troféu que o filho ganhara como artilheiro do campeonato Pé no Chão, um dos mais importantes do futebol de várzea da cidade. Foi com ele nas mãos que a cabelereira contou ao Diário do Litoral como enfrentou o luto.

“Eu tinha que superar. Cada dia era uma superação e o fato de ter trabalhado muito no Ano-Novo me ajudou. Meus filhos ficaram revoltados. Eles eram muito unidos. Não podia viver o meu luto. Apesar da minha dor, tinha que ampara-los”, destacou Eunice.

Foi na missa de um ano da morte de Léo, realizada também na véspera Natal, que a cabelereira teve a certeza de que precisava transformar o luto em ação. “Sai da igreja desalentada porque precisava e preciso mantê-lo vivo para que eu possa viver. Tinha que ter uma ação para haver uma reação”, afirmou.

Projeto

Eunice teve a ideia de promover, no ano seguinte à missa, um café da manhã para moradores de rua e crianças que a procuram para vender material reciclável em uma loja montada por um dos filhos, próximo à entrada do Sambaiatuba, comunidade que abrigava o antigo lixão. Falou com as clientes do salão e reuniu doações para o primeiro evento. Desde então, há seis anos, todo o dia 24, Eunice, por meio do projeto Viva Léo realiza o evento.

“Cadastrei 130 pessoas. Depois do primeiro café a mesa ficou com restos de pão e frutas e as crianças pediram para levar para casa, pois seria a comida que eles colocariam na mesa para a ceia de Natal. Fui para casa com aquilo na cabeça e pensei: tenho que dar uma comida para eles no natal”, destacou a cabelereira.

A miséria nas comunidades Ilha do Bugre e Caminho das Índias, que cresceram no entorno do antigo lixão do Sambaiatuba onde há uma área de transbordo interditada, é muito grande.

“São crianças de seis, sete, oito anos que vão na loja vender reciclado. Pegam o pouco dinheiro que conseguem e vão direto no mercado. Compram cinco salsichas e pão e levam para casa. Eles querem comida. Pensei também precisamos acolher essas crianças. Fechamos em 130 sacolinhas de natal e com amigos e amigos de amigos juntamos os presentes de natal. Hoje são 282 crianças cadastradas”, ressaltou.

Com o passar dos anos o projeto cresceu. Eunice não conta com ajuda do poder público. Tudo que consegue é por meio de doação. A cabelereira não conhece 90% dos doadores. Além da sacolinha, que contém roupa, brinquedo e calçado, as famílias das crianças cadastradas participam do farto café da manhã e ganham cesta básica e um frango para que possam ter comida na mesa no Natal.

“Esse ano por causa da crise foi mais difícil. Eu também dedico dois meses de trabalho para o projeto. Tem criança que vive em tamanha miséria que pede para trocar a sacolinha de natal pela cesta básica. São muitos irmãos cadastrados. Essa festa é o meu natal. O natal da minha família”, afirmou Eunice. O projeto atende crianças de 0 a 11 anos.

Certa de que mantém a memória do filho viva, Eunice destaca a evolução espiritual que teve ao longo dos últimos sete anos. “Depois da morte do Léo perguntava todos os dias para Jesus: o que faço com o amor e a preocupação que tinha pelo meu filho? Tanto perguntei a Deus que no ano seguinte a morte ele me colocou essa missão. Hoje me preocupo com 282 ‘Léos’. Quero para eles o que queria para o meu filho. Que eles tenham oportunidades melhores na vida. Se encontra-los bem na vida, vai ter valido tudo o que fiz”.