Os passos lentos, mas vigorosos de quem já enfrentou inúmeros obstáculos na vida nos guiam até um dos becos atingidos pelas chamas do maior incêndio em palafitas de Santos, no Caminho São Sebastião. Ali dona Maria José Ramalho, de 64 anos, aponta para a residência de alvenaria, que embora ainda se mantenha de pé, traz na estrutura vestígios do fogo. O quarto foi consumido pelas labaredas; os demais cômodos possuem paredes repletas de fuligem e todas as telhas estão pretas por conta do calor.
Maria José carrega consigo o nome da mãe do povo e também a luta do brasileiro em sobreviver apesar das adversidades: aposentada da Cooperativa de Pesca Nipo Brasileira, vende chup-chup para complementar a renda e conseguir arcar com as despesas da casa pequena onde vive e que quase ruiu na noite da última segunda-feira (2).
Com humildade, dona Maria permite a entrada da Reportagem na pequena residência. O odor de queimado preenche todo o ambiente, vindo principalmente das telhas queimadas. O chão da sala está parcialmente forrado com pisos brancos, comprados pela aposentada para decorar a casinha no final do ano. Por conta da pequena reforma, dona Maria havia deslocado eletrodomésticos como a geladeira e a centrífuga para o quarto. O cômodo foi consumido pelo fogo e tudo o que estava ali foi perdido.
“Essa aqui era a minha geladeira. Eu tinha feito compras nessa semana. Dá para ver também umas paredes do meu guarda-roupa”, explica dona Maria, com lágrimas nos olhos, apontando para as cinzas do incêndio.
Na manhã de ontem, a aposentada esteve no Centro de Convivência São José para retirar algumas roupas e um colchão para dormir. Quando a noite cai, no entanto, o companheiro não é o sono e sim o medo.
“Nessa noite (terça-feira) eu não consegui fechar os olhos porque as telhas ainda estavam quentes e ficaram estalando. Eu estava com medo do fogo recomeçar. Sei que se por acaso chover também vai estragar tudo aqui dentro, porque as paredes estão firmes, mas o teto está condenado. Tenho que pedir para trocar, mas não tenho dinheiro para isso. A geladeira que guardava os chup-chups pegou fogo, nem com o dinheirinho do bico consigo contar. Mas também não posso sair daqui, porque podem pegar minha casinha. A gente fica sem escolha, só com a fé em Deus para continuar”, desabafa.
A história de Maria José é uma dentre as das mais de 318 famílias que perderam as moradias e parte de suas identidades no fogo. Durante toda a quarta-feira, equipes da Prefeitura de Santos e da Terracom realizaram a limpeza da área atingida, recolhendo entulhos e limpando as ruas e calçadas. Moradores cadastrados também puderam retirar itens de higiene, colchões e cestas básicas no Centro de Convivência São José.
As informações sobre os desabrigados colhidas pela Seas foram passadas para a Cohab, que tomará as providências cabíveis. Dezenove pessoas solicitaram acolhimento e estão distribuídas em três serviços da Prefeitura de Santos.
Itens de higiene pessoal e roupas de cama são as principais carências
A Secretaria de Assistência Social de Santos continua arrecadando itens para as vítimas do incêndio. A principal necessidade no momento é a doação de alimentos não perecíveis, fraldas nos tamanhos G e extra G, leite, água, itens de higiene pessoal (sabonete, pasta de dente, papel higiênico, shampoo e condicionador), roupa de cama, toalhas e colchões. Quem quiser se voluntariar para auxiliar na separação das roupas também pode procurar o Fundo Social de Solidariedade de Santos (FSS).
Em Santos, as doações podem ser feitas na sede do FSS, na Avenida Conselheiro Nébias, 388, das 8 às 18h. Dois postos de arrecadação também foram montados no Aquário Municipal (Praça Luiz La Scala, s/nº, na Ponta da Praia), no Orquidário (Praça Washington, s/nº, no José Menino) e na Subprefeitura da Zona Noroeste (Avenida Nossa Senhora de Fátima, 456, Chico de Paula). A UME Pedro Crescenti também recebe doações (Av. Brigadeiro Faria Lima s/nº, Rádio Clube). O Fundo Social de Solidariedade também está retirando as doações em domicílio.
Em São Vicente, as doações podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9 às 12 horas, e das 13 às 17 horas, na sede do FSS, localizado na Rua Benedito Calixto, 205, no Centro.
O Bazar do Fundo Social de Solidariedade, situado no Parque Anilinas, no centro de Cubatão, receberá os materiais doados pela população dentro dessa campanha. Doações de maior vulto podem ser definidas com a equipe do FSS, pelo telefones 3362-6121 e 3362-0842.
