Desde 1936, ininterruptamente, o Bloco Ba-Bahianas sem Taboleiro arrasta uma multidão na manhã de domingo de Carnaval, em São Vicente. A tradição do desfile ultrapassou gerações e a história do grupo se confunde com a da cidade. Para comemorar os 81 anos de existência, a diretoria do bloco pretende reunir junto aos foliões relatos e fotografias que retratem esse período. O objetivo é transformar o acervo testemunhal e visual em livro.
“O Ba-Bahianas é um bloco de arrastão que não tem acervo. Estamos em trabalho de pesquisa e de coleta de material histórico. A ideia é contar como era São Vicente nos anos 30 e 40, como era o Carnaval antes do Ba-Bahianas e a trajetória da festa depois do bloco. Para isso contamos com a ajuda de pessoas que tenham parentes que tenham registrado esses momentos, seja em fotos, reportagens ou filmagens”, explicou o advogado e historiador Flávio Viana. Ele integra a diretoria do bloco.
O primeiro desfile do Ba-Bahianas foi em 1936. Ao som de uma bandinha, o grupo de homens, formado basicamente por atletas do São Vicente Futebol Clube, vestidos com roupas de baianas, se concentrou em frente a um pequeno palco montado na Rua Martim Afonso, no Centro da cidade. Após a fundação, o bloco passou a ter concentração na Praça Barão do Rio Branco. No início deste ano, o último fundador do grupo vivo, Pedro Spilotro, faleceu.
“O Ba-bahianas teve várias fases. Na primeira, os homens saíam vestidos de baianas e as mulheres eram proibidas de desfilar no bloco. Depois veio a fase do Carnaval de Corso, com carros anos 20 e 30. Teve também o período da crítica aos políticos entre a ditadura e o início dos anos 90. Nos anos 90, seguindo a linha do Carnaval de Salvador, o bloco passou a contar com trio elétrico. A partir dos anos 2000, as mulheres tiveram a permissão para desfilar”, explicou Viana. Atualmente, os homens que seguem o bloco se vestem de mulher.
Mulher
A professora Regina Dias foi a primeira mulher a presidir o bloco. Atualmente na diretoria, ela relembra a sua trajetória no grupo, que vivenciou a sua pior fase entre os anos de 2013 e 2016.
“Antes, a gente só pintava os pais e avôs. Entrei na associação em 2000 e me tornei presidente em 2012. Virei presidente sem saber. O bloco estava parado em frente à Prefeitura, o Nazir (ex-presidente) pegou o microfone e falou ao prefeito Tercio (falecido em dezembro do ano passado): ‘o senhor está aqui para nomear a nova presidente do Ba-Bahianas, de hoje em diante ela assume’. Eu não sabia nem o que falar, mas assumi”, destacou a professora.
No ano seguinte à nomeação surpresa, Regina enfrentou seu primeiro desafio: colocar o bloco na rua. Com a mudança de governo, o grupo enfrentaria pressão e resistência política pelos próximos quatro anos. “Perto do desfile a minha casa amanhecia com a mídia querendo saber da briga do bloco com a Prefeitura. Fazíamos reunião todo mês com a Secretaria de Cultura. Eles colocavam inúmeras limitações para que nós desistíssemos, mas continuamos mesmo com todos os problemas”, destacou.
Desfile
Este ano, o bloco sai com mais apoio da Prefeitura. A previsão é arrastar para a rua mais de 50 mil foliões, marca registrada no ano passado. A concentração do Ba-Bahianas será às 10 horas, na Praça 22 de Janeiro. A organização prevê a participação de três ou quatro trios elétricos que devem animar o público. O desfile seguirá pela Avenida Embaixador Pedro de Toledo até a altura da Praça Tomé de Souza, de onde haverá a dispersão por volta das 13 horas.
“É bom lembrar que o desfile é todo filmado e há esquema de segurança. Pretendemos fazer uma homenagem ao Spilotro. A gente pede aos homens que puderem que vão caracterizados de baianas para relembrarmos os velhos tempos do bloco. Antigamente havia concurso para escolher a melhor baiana”, lembrou Regina.