O zelador que preenche com poesia os muros do Centro

Primeiras poesias foram coladas em 2005 nos muros dos casarões históricos; poeta quer publicar um livro

A paixão pelas palavras surgiu ainda na infância, nas aulas de literatura. Mas foi apenas aos 39 anos que Luis Vagner Dias teve as primeiras poesias coladas com fita adesiva em um dos prédios históricos da Rua XV de Novembro. “Vontade de expor o que escrevia eu sempre tive, mas também tinha medo de fazer algo errado e ser punido. Até que um corretor de café pegou um dos meus textos e colou. Assim, de impulso. E todo dia eu ia até lá observar as pessoas parando para ler o que eu tinha escrito”.

Luís é o nome de registro do zelador que há 12 anos preenche com poesia os muros do Centro Histórico de Santos sob o pseudônimo de ‘Barney Days’. A assinatura, que hoje o consagra, vem de um apelido ingrato da infância: por ter uma deficiência no pé, os colegas de sala o chamavam de Barney, em referência ao personagem do desenho animado ‘Os Flintstones’. “Eu odiava. Mas quando cresci e fui fazer teatro me disseram que eu podia mudar esse rancor pelo apelido e o transformar em algo forte. Colocaram até o meu sobrenome Dias em inglês para ficar mais chique”, conta sorrindo.

As poesias de Barney ocupam hoje dois trechos da Rua do Comércio: o muro de um estacionamento e as paredes de um imóvel histórico – ambos com a devida autorização dos proprietários. Não é difícil notar quem, em meio à rotina agitada de um centro fervilhante, pare para ler algumas das palavras do interventor urbano.

Pessoas como a advogada Luci Faccioli, que antes de conhecer o zelador conheceu o poeta. “Há uns três anos eu estava indo para o escritório e me deparei com as poesias nos muros. Cheguei ao prédio onde trabalho, cumprimentei o Vagner na portaria e entrei em êxtase no escritório falando sobre a arte. Nem acreditei quando me disseram que o autor era ele”, conta.

Ou como o despachante aduaneiro Nelson Santos, que considera a arte do colega de trabalho e amigo como um suspiro em meio aos dias corridos de quem trabalha na região. “A gente observa a todo tempo as pessoas parando aqui e abrindo um sorriso ao ler essas frases. Ele faz a diferença na vida dessas pessoas”, conta.

Filho de um dos primeiros letristas da Baixada Santista, foi na década de 80, dentro do ateliê do pai (que ficava em uma das casas históricas da Rua Frei Caneca, também no Centro), que Vagner tomou gosto pela escrita caprichosa e em letra de fôrma. O retorno para a região, em 2004, foi a oportunidade perfeita para colocar em forma de palavra os sentimentos adormecidos dentro de si.

Após a primeira colagem, na Rua XV de Novembro, o artista não parou mais de escrever. Um antigo bar abrigou durante alguns meses a arte de Barney. Ele também é convidado a participar de ações e eventos da cidade com sua poesia. Um dos poemas, ‘Barco de Carvalho’, foi feito em homenagem a Vicente de Carvalho e está no livro ‘Mar Selvagem’, antologia organizada por Márcio Barreto e que reúne trabalhos inspirados na obra do Poeta do Mar.

Sobre a arte da escrita, Barney não sabe descrever como funciona. “Eu apenas sinto e depois escrevo. Minhas poesias falam sobre arte, sobre a tristeza e sobre a dor. Falam também de amor e todas elas precisam ser apreciadas pela alma para fazer sentido”, conta.

É possível perceber, em alguns dos muros decorados por Barney, que algumas das poesias estão ilegíveis por conta da ação do tempo. Quando isso acontece, ele realça algumas das frases ou substitui por novos pensamentos, todos originados a partir do encontro da caneta com o papel. “Sei que hoje temos computadores e algumas vezes eu até transcrevo alguns dos meus pensamentos neles. Mas a poesia bruta nasce nesse encontro. Precisamos estimular as crianças na escola para que elas gostem de ler e escrever”, afirma.

E foi transformando sentimentos em arte que Vagner conseguiu encontrar forças para superar a partida de alguns familiares nos últimos anos. “Foi um tempo difícil. Eu não tinha ânimo para escrever, mas chegava para trabalhar e via as pessoas perguntando o motivo dos papéis estarem desgastados. Então eu tive uma série de sinais e entendi que eu precisava continuar fazendo isso. É o que me mantém vivo”.

Além de seguir com sua intervenção urbana, o poeta pretende eternizar as frases dos muros em um livro. Para isso, busca apoio de pessoas capazes de abraçar a ideia. Até lá, ele já guarda o arsenal de palavras e o significativo nome para sua mais nova obra: ‘Ruas de Minha Alma’, em tinta e papel.