Atrevendo-me a uma infame paráfrase de Fernando Pessoa e sustentado naquela coragem própria dos que amam, decidi escrever esta carta de amor, que para alguns será ridícula. Não temo a vala rasa e comum da pieguice em que os insensíveis costumam lançar os que têm coragem de expressar sentimentos românticos. Acreditando muito mais que somente os que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículos, resolvi dizer por que amo tanto e tão profundamente essa que já provou que me ama, fazendo da certeza desse amor correspondido o elixir da esperança que sempre me garantiu força para o pão nosso de cada dia.
Há quem diga que ao longo da vida teremos muitas paixões e um único amor. Aqui, esse sentimento agora confessado é de amor cristão. Não quero que seja o nobre sentimento compreendido na miúda perspectiva de gente vulgar, que nunca parou para olhar este pedaço infinitamente lindo de mar e perceber aqui o milagre desta paisagem. O afeto é força motriz das grandes realizações de uma pessoa ou de todo um povo. O sentimento bom une e faz brotar vida – e é exatamente esta vida que o aconchego do seu calor me traz.
Eu, quando menino, você sabe, sonhava em ser o que seu amor me tornou. Cada letra da minha formação guarda um pouco do muito que encontrei em você. Não quero que imagine que minhas palavras nascem do exagero dos que lançam adjetivos fáceis. Minha pretensão não é ser agradável aos seus ouvidos, mas celebrar o vigor do sentimento de respeito, de gratidão e de encantamento que trago no peito e sempre por você. Naquela escola Benedito Calixto de ontem, a ideologia de hoje aprimorada pelas vivências inúmeras que você me legou com a generosidade peculiar àqueles que só desejam o bem do outro. Em cada livro que você mandou para mim através de tantos e durante tantos anos, devo a liberdade do meu pensamento e a força da minha palavra.
Aprendi com você que o que nasce da glória só tem por destino iluminar. Viver com você é fazer parte de uma gloriosa história de séculos de resiliência. Andando pela rua, olhando cada prédio e, de forma particular, cada monumento, enxergo que o valor da História, pelo que você ensinou, não está propriamente no tempo, mas na consciência de que o tempo é um legado que poderia melhorar muito a vida da gente. Você me tirou a urgência típica da juventude, me trazendo paciência e repertório para discernir o bom do mau. Você me ensinou que o alicerce de uma existência é a própria existência do tempo que o alicerce demandou para existir. Mas o fato é que, mesmo tendo absoluta consciência da minha juventude e da sua, nós dois sabemos que a nossa história é um patrimônio tão grande e importante que não cabe só em nós e que não é só nosso – e é também por nossa existência ter raízes tão profundadas que permaneceremos de pé, na memória de cada um dos nossos que receberam a glória de nascer aqui e cujo espírito mantém iluminadas a nossa cultura e as nossas tradições seculares.
Para além da beleza da sua cultura e cabedal histórico, você é fisicamente linda! O viço das suas cores, esse jeito que é só seu, a luz do sol que parece brilhar com especial intensidade sobre você… olhando para você em contemplação, lembrei-me de que Oscar Niemeyer certa vez disse: “O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida”. Ele falou de você, tenho certeza. Onde haveria sinuosidade mais bela senão em você a inspirar essa poética definição de curva? Uma beleza que impressiona também por não se curvar à miopia de uns e ao ataque vil da ganância de outros que só sabem devastar. Dos céus, você recebeu o dom de encantar também por ser bela – e para defender o que a divindade consagrou é preciso muito mais trabalho de mãos que olhos em compreensível deslumbrada contemplação.
Eu não sei se já havia dito, mas a família que você me trouxe é a própria coragem que me toma o espírito para continuar e nunca pensar em desistir de você. Esse pertencimento que eu sinto com relação a você é que fez surgir esse amor que hoje, nesta carta, eu confesso. Cada um que sorri nesta terra tão abençoada é para mim o combustível do meu amor. Os seus filhos do Leste, do Norte, Nordeste, de todo lugar são a esperança de que tão glorioso quanto o seu passado será o seu futuro, pois toda a prosperidade que quero para nós é o sorriso largo dos nossos irmãos. Que gente mais aguerrida e persistente senão a nossa? Que o amor seja a bússola das decisões que tomam uns em nome e por conta dos nossos.
Perdoe-me por tanto texto. Você sabe que a literatura é parte de mim. Aliás, você me inspira à literatura por tudo e por tanto que representa na minha existência. Receio deixar algo por dizer. Vinicius de Moraes escreveu numa de suas músicas “Que todo grande amor só é bem grande se for triste”. Discordo. O meu por você é alegre, é iluminado e será eterno porque transcende a dimensão material. Mas quero dizer que concordo com outro trecho dessa mesma música, em que ele diz que “Eu não existo sem você”. Esse é o meu caso. Eu escrevi tudo isto apenas porque me dei conta de que, mesmo sentindo um amor tão grande e que eu sei que você sabe, nunca disse para você diretamente e em palavras no papel o que procuro falar por meus atos de carinho e proteção: Eu amo você, Itanhaém! Parabéns pelo seu aniversário, meu amor!
Rutinaldo da Silva Bastos é advogado militante e professor universitário de Direito.
