6 em cada 10 delegados de São Paulo precisam de bicos para sobreviver, aponta pesquisa

Levantamento mostra sobrecarga de trabalho e impacto na saúde; até aposentados seguem em atividade para complementar a renda

Levantamento 'Raio-X da Carreira de Delegado de Polícia' foi realizado pelo Instituto Datapim

Levantamento 'Raio-X da Carreira de Delegado de Polícia' foi realizado pelo Instituto Datapim | Divulgação

Uma pesquisa inédita revela uma realidade preocupante dentro da Polícia Civil de São Paulo: seis em cada dez delegados exercem atividades extras para complementar a renda.

O levantamento “Raio-X da Carreira de Delegado de Polícia”, realizado pelo Instituto Datapim a pedido do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), ouviu 711 profissionais ativos e aposentados em todas as regiões do estado.

O estudo mostra ainda que metade dos que acumulam funções sente impacto negativo direto na saúde física e mental. Entre os aposentados, 42% continuam trabalhando, muitas vezes expostos a riscos.

Foi o caso de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral e pioneiro no combate ao crime organizado, executado há duas semanas em uma emboscada na Baixada Santista, mesmo já fora da corporação.

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Na ativa, a situação também preocupa: além da segunda jornada, os delegados enfrentam plantões sobrecarregados pela falta de efetivo. Hoje, o déficit na Polícia Civil paulista ultrapassa 15 mil servidores, incluindo investigadores, escrivães, peritos e agentes.

O cenário se agrava pelo fato de São Paulo pagar o 4º pior salário entre as 27 unidades da federação, segundo o Sindpesp.

“Infelizmente, as carreiras da Polícia Civil bandeirante são pouco atrativas. Há grande evasão para Polícias de outros estados, que oferecem melhores salários, e até para outras áreas do serviço público”, afirma a presidente do Sindicato, delegada Jacqueline Valadares.

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O tema também expõe cobranças ao governador Tarcísio de Freitas, que prometeu em campanha valorizar e modernizar a Polícia Civil.

Parte dessa expectativa está concentrada na Nova Lei Orgânica, em elaboração desde janeiro, mas cuja conclusão já sofreu atrasos. A categoria aguarda garantias de direitos básicos como pagamento de horas extras, adicional noturno e auxílio-saúde.

Apesar das dificuldades internas, a confiança da população na instituição permanece alta. Segundo pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada em agosto, a Polícia Civil aparece como a mais confiável entre os brasileiros, com 60% de aprovação, à frente da Polícia Militar, da Polícia Federal e até da Igreja Católica.