‘A obesidade é uma doença grave’

O cirurgião bariátrico Joaquim neto fala sobre os procedimentos contra a doença que é um dos maiores problemas de saúde pública atualmente

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projeção é que em 2025, 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso e mais de 700 milhões obesos. O índice de brasileiros que persistem em maus hábitos segue em crescimento. Mais da metade da população do país está acima do peso.

Para o médico Joaquim Neto, que também é membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, os números revelam um perigoso cenário mundial.

A procura pela cirurgia de redução de estômago no país vem numa crescente constante. Mais de 93,5 mil pessoas passaram pelo procedimento no último ano. E estes números têm grandes chances de crescerem ainda mais.

Diário do Litoral – nos últimos cinco anos, o número de cirurgias de redução de estômago aumentou quase 90% no brasil. por que?

Joaquim Neto – Por vários motivos. Primeiro porque hoje a gente sabe que a obesidade é uma doença grave. A gente sabe mais isso agora do que sabia no passado. E, hoje em dia, o que se tem de mais eficaz para o tratamento é o procedimento cirúrgico, a cirurgia bariátrica. O ideal era que se conseguisse fazer era que se conseguisse fazer isso sem precisar do recurso do procedimento cirúrgico.

Diário do Litoral – Quais os tipos de cirurgia existentes?

Joaquim Neto – Todos os tipos de cirurgia consistem basicamente em alguma restrição gástrica, que pode vir acompanhada de uma mudança na absorção do alimento. Essas situações combinadas é que determinam o tipo de procedimento. Na mais comum a gente faz uma redução do estômago e um pequeno desvio do intestino. Uma outra cirurgia é a que a gente cria um tubo gástrico no estômago dificultando a passagem do alimento. Existem outros tipos, mas esses dois tipos ainda são os mais comuns no nosso meio.

Diário do Litoral – Quem pode passar por esses procedimentos? Quando a cirurgia bariátrica é indicada?

Joaquim Neto – É indicada para pessoas obesas mórbidas. Pessoas que tenham o índice de massa corpórea acima de 40. Esse índice de massa acima de 40 caracteriza o paciente obeso mórbido. Essa pessoa, desde que ela tenha tentado várias vezes, por pelo menos dois anos, fazer tratamentos clínicos para perder peso e não tenha conseguido a gente pode indicar o procedimento cirúrgico. Existe uma outra situação, que são os pacientes que tem um índice de massa corpórea quase de 35 ao 40. Só que nesses casos quando ela é associada a algum problema de saúde relacionado à obesidade, como por exemplo pressão alta, diabetes, colesterol alto.

Diário do Litoral – a partir de qual idade o procedimento cirúrgico pode ser feito?

Joaquim Neto – Atualmente, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica passou a indicar a cirurgia bariátrica para pessoas de 16 anos até 65 anos. Desde que tenha indicação.

Diário do Litoral – Muita gente não quer fazer ou se recusa por conta dos riscos.

Joaquim Neto – Hoje a cirurgia bariátrica é muito mais segura do que era há 10, 15 anos. A maioria das cirurgias é feita por laparoscopia e normalmente faz com que a recuperação seja muito mais rápida. A volta desse indivíduo para suas atividades normais pode variar uma semana ou 15 dias. O grande problema é que o obeso mórbido é doente. Estamos operando um paciente doente. Com problemas decorrentes da obesidade. Qualquer procedimento que vá se fazer o risco dele vai ser muito maior do que uma pessoa não obesa. Mas isso não é só o procedimento de cirurgia bariátrica, mas qualquer procedimento. Outro ponto importante é que a pessoa precisa perder peso. A gente sabe que pessoas que perdem peso antes do procedimento cirúrgico diminuem em 200% o risco de problemas no pós-operatório. Operei vários pacientes que não conseguiam levantar da cama e sair de casa. A resposta desse paciente, felizmente, é muito positiva quando eles perdem peso.

Diário do Litoral – Melhoram a qualidade de vida?

Joaquim Neto – Sem dúvida. Teve um garoto que chegou na cadeira de rodas. Ele tinha um problema congênito na perna e isso dificultava, juntou com a obesidade, hoje ele é um paciente normal. Agora vai fazer um procedimento para ver se consegue corrigir esse problema anatômico dele. Mas já anda até praticamente normal. A obesidade é uma doença grave, muito grave. É que a gente não dimensiona o problema que a obesidade repercute na vida das pessoas. E quando a gente tira isso de questão, a pessoa consegue enxergar muitas outras coisas.

Diário do Litoral – como prevenir para não chegar nessa situação?

Joaquim Neto – Não existe muitos segredos. Esse é um grande problema para quem está obeso e quer tratar. Sempre procura uma fórmula mágica, um medicamento milagroso e isso não existe. O que existe é a combinação do que você consome de caloria com o que você faz sobre a caloria.  É matemático. O que a gente precisa ter é um bom equilíbrio com aquilo que a gente consome e com o que a gente gasta. O grande problema é que cada vez mais a gente consome alimentos calóricos, geralmente alimentos com baixo valor nutritivo, essas redes de fast foods. São alimentos que são praticamente acessíveis para toda a população. Muito calóricos e com pouco valor nutritivo. E por outro lado cada vez mais o homem está preso dentro de casa por problemas socioculturais, de ordem pública, tem medo de caminhar na rua, de jogar bola. As crianças estão presas no computador, no videogame, no condomínio. Esse conjunto de fatores é que faz a pessoa cada vez mais ganhar peso. Se a gente pensar, há 40 anos as atitudes mudaram, os alimentos mudaram e a pessoa hoje em dia engordou demais em decorrência de tudo isso que a gente tem vivido.

Diário do Litoral – o lado positivo da cirurgia bariátrica a gente já sabe. E os pontos negativos?

Joaquim Neto – O procedimento cirúrgico funciona como um limitador na vida da pessoa. Ele vai obrigar a pessoa a fazer tudo aquilo que ela deveria estar fazendo antes do procedimento cirúrgico. Comer várias vezes ao dia, mastigar bem, comer devagar, evitar alimentos mais calóricos. Todas as vezes que ele por acaso não fizer o que a cirurgia manda ele vai ter algum tipo de incômodo. Ele vai vomitar, ficar entalado, suar frio, sensação de morte