A pecuária brasileira enfrenta um desafio sem precedentes: a crise climática. Ondas de calor intensas, secas prolongadas e chuvas imprevisíveis deixaram de ser previsões futuras para se tornarem uma ameaça real e imediata à produtividade e à segurança alimentar no país.
Um estudo recente da Esalq-USP, baseado em experimentos globais, revela que o estresse térmico está mudando o metabolismo dos animais.
Em vez de transformarem energia em carne, leite ou ovos, bois, porcos e galinhas estão gastando suas reservas apenas para tentar não morrer de calor.
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O “vilão” do metabolismo: Por que a produção cai?
De acordo com Robson Silveira, pesquisador do Nupea/Esalq-USP, as vacas leiteiras estão no topo da lista dos animais mais afetados.
“A própria produção de leite gera calor interno. Somado ao calor ambiental, o desafio é enorme. Reduções de 20% a 30% na produção de leite em períodos críticos já são comuns”, explica.
Quando o calor aperta, o animal para de comer para evitar o calor da digestão. O resultado é um efeito dominó:
- Menos comida: Queda no ganho de peso e na produção.
- Desvio de energia: O corpo foca na termorregulação (resfriamento).
- Estresse respiratório: Ofegantes, os animais ficam mais suscetíveis a doenças.
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Quem sofre mais e quem resiste?
A pesquisa aponta que nem todos os animais sentem o clima da mesma forma. Raças europeias (Bos taurus) sofrem drasticamente, enquanto raças zebuínas e locais apresentam maior “plasticidade”.
- Altamente Sensíveis: Galinhas de postura, codornas e vacas de alta produção (como a Girolando). Projeções indicam que aves podem aumentar em até 40 movimentos respiratórios por minuto para tentar dissipar calor.
- Mais Resistentes: Cabras, ovelhas Morada Nova e bovinos de corte zebuínos (como o Brahman).
- Alerta de mortalidade: Nos últimos dois anos, ondas de calor no Centro-Oeste e Sul do Brasil já causaram mortes em massa de bois por hipertermia, enquanto geadas severas mataram bezerros por hipotermia.
Sinais de socorro no rebanho
Produtores devem ficar atentos aos indicadores de que o rebanho está pedindo ajuda:
- Comportamento: Busca constante por sombra e animais sempre ofegantes.
- Saúde: Aumento na pressão sanitária e maior disseminação de micro-organismos.
- Pastagens: Grama seca e de difícil digestão devido ao estresse hídrico do solo.
Como proteger o futuro da pecuária?
Especialistas da UFG e UFV reforçam que o manejo adaptativo não é mais opcional. As estratégias recomendadas incluem:
Pecuária de Leite: Uso de ventiladores, aspersores e nebulizadores em instalações modernas.
Corte e Pequenos Ruminantes: Adoção de sistemas silvipastoris (plantio de árvores no pasto), que garantem sombra e conforto térmico.
Aves e Suínos: Ambientes rigorosamente controlados e redução da densidade de animais por metro quadrado.
Genética: Valorização de raças locais brasileiras, naturalmente adaptadas ao clima tropical.
