Gabriel Maziero, Vanderlei dos Santos, André Biragéu e Tábata Medeiros — todos jovens com menos de 30 anos que, para fugir do desemprego, decidiram aproveitar as oportunidades de trabalho que surgiram com os aplicativos de entrega.
Gabriel é o mais novo deles, em idade (21), e em assumir o posto no escritório ao ar livre que fica na Rua Fernão Dias, no Gonzaga, em Santos. Os olhos não desgrudam do celular, já que é ali onde surgem os pedidos feitos através dos apps.
Já André tem 27 anos. Teve outros empregos até que a necessidade de aumentar os rendimentos chegou e ele decidiu embarcar na onda do trabalho tecnológico. Está nessa há dois anos.
Através do Box Delivery, app de entregas que também abrange documentos, ele consegue a renda necessária para se manter. “Tem mês que eu consigo R$ 2.000, mas varia bastante. Tudo depende de mim. Se eu ficar disponível mais horas e finais de semana, o valor melhora”, explica.
Tábata, 26, é a única que tem outra fonte de renda. Ela é técnica em enfermagem e, nas horas vagas, faz entregas de moto para complementar o salário.
Sem exceção, todos elogiam esta nova forma de trabalhar que surgiu com a internet. Segundo eles, a liberdade é o que mais atrai, já que sem vínculo empregatício não há necessidade de cumprir horários, quantidade de dias trabalhados, nem lidar com “mau humor de patrão”, brinca Vanderlei, que deixou o emprego fixo em uma loja para trabalhar com aplicativos. Questionados sobre o motivo de se concentrarem no Gonzaga, eles explicam que o bairro tem muitos estabelecimentos, e consequentemente, mais pedidos.
PARADOXO
O desemprego chegou para Dulcilia Misdalani quando ela tinha 50 anos e um dos fatores foi exatamente a tecnologia, já ela era operadora de uma cooperativa de táxis que viu os chamados despencarem com a chegada dos apps de transporte. Após dois anos parada, a solução veio justamente através deles. Hoje, ela e o filho de 25 anos fazem entregas via app.
“Como dirijo moto há muito tempo e conheço bem a cidade, decidi arriscar. Me saí tão bem que ganhei até premiação da empresa”, conta.
Todos eles fazem parte dos quase 4 milhões de trabalhadores autônomos do país que utilizam plataformas como fonte de renda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente ao primeiro trimestre de 2019.
Com o mercado de trabalho ainda sem a recuperação esperada, aplicativos de serviços – como Uber, 99, iFood e Rappi – se tornaram, em conjunto, o maior ‘empregador’ do País.
Mas, se de um lado há os que elogiam, do outro há quem conteste as condições deste novo cenário profissional, já que sem vínculo, não há qualquer garantia oferecida ao “trabalhador do futuro”.
