Uma moradora de Santos foi vítima de uma fala preconceituosa entre o fim da manhã e o começo da tarde deste sábado (10) em uma feira livre que ocorria na região do bairro da Pompeia. Segundo depoimento da autora da denúncia, um homem que trabalhava em uma das barracas fez um comentário racista ao comparar o cabelo da vítima a uma alface crespa. O caso foi registrado como injúria por equipes da Polícia Civil do 7º Distrito Policial de Santos.
Faça parte do grupo do Diário no WhatsApp e Telegram.
Mantenha-se bem informado.
O ocorrido se deu em uma feira livre que fica posicionada na região da Rua Marquês de São Vicente, entre a Avenida Bernardino de Campos (Canal 2) e a Avenida Senador Pinheiro Machado (Canal 1), por volta de 11h do último dia 10.
Em depoimento prestado junto à Polícia Civil, a moradora, identificada como a dona de casa, Norma Lucio da Rocha, de 52 anos, afirma que fazia compras no local quando um feirante, de cor branca, aparentando ter menos de 30 anos e de cabelos castanhos, fez um comentário racista se dirigindo às pessoas que passavam pelo local.
“Olha o alface durinho e crespo, igual ao cabelo dela”, relatou ter ouvido a vítima.
“Por volta das onze da manhã eu fui à feira e parei numa barraca para pegar um pastel, um caldo de cana e falei pra moça esperar só um minutinho que eu ia comprar agrião. Nisso eu estou andando na feira e estou passando e um feirante fala ‘Olha, compre um alface, o alface está barato, está aqui durinho e crespo que nem o cabelo dela’, e apontou pra mim”, explica Norma.
“Algumas pessoas riram, não uma gargalhada, mas uma risadinha de lado e eu fiquei muito sem graça. Fui até metade da feira, voltei pro carrinho de pastel pra pegar as coisas e já voltei me tremendo, bem nervosa. Aí a moça percebeu e perguntou se eu precisava de ajuda, se tinha acontecido alguma coisa e eu respondi, ‘nossa o rapaz falou uma coisa ali, foi comigo’ e ela perguntou o que foi. Aí contei e ela falou pra eu chamar a polícia. Quando ela falou ‘chama a polícia’ eu já comecei a chorar. Eu fiquei completamente nervosa, me senti humilhada, ridicularizada”.
O autor dos comentários não foi identificado, mas a moradora decidiu procurar as autoridades para registrar um boletim de ocorrência neste domingo (11).
“Voltei lá e falei ‘eu passei aqui e você falou que me apontou falando, comparando o meu cabelo com alface’ e ele disse que havia falado mesmo, ele admitiu e aí eu disse que não tinha dado esse direito a ele, mas ele me deu as costas e me deixou falando sozinha”.
Uma vez na presença da Polícia Civil, no 7º Distrito Policial de Santos, ela prestou a queixa e a equipe do DP emitiu um boletim de ocorrência por injúria. O caso segue sendo investigado pelas autoridades.
Em nota, a Prefeitura de Santos afirmou que “rechaça qualquer ato e manifestação de racismo e/ou de injúria racial. O caso mencionado corresponde a crime, cuja investigação cabe às autoridades policiais”. O órgão ainda afirmou que a Secretaria de Finanças e Gestão abrirá um processo administrativo para apurar eventual ofensa ao cidadão – infração prevista no termo de permissão para atividade de feirante no Município –, assegurando a ampla defesa ao permissionário. Em caso de condenação criminal, o permissionário terá a licença cassada, de acordo com o termo de permissão.
“Eu só chorava. Eu não sei o que que as pessoas pensam com isso. Não sei o que que elas querem ridicularizando outras. É o tal do racismo recreativo. Eles fazem achando que é engraçado e tem quem ri junto com isso. Eu tomei essa atitude de ir na delegacia com o apoio dos meus filhos, do meu marido, das minhas irmãs porque a gente sabe, o racismo é crime e eu tenho que fazer a minha parte para tentar acabar. Eu imagino as pessoas que sofrem isso todos os dias, todas as horas, todos os segundos e todos os minutos e não fazem nada. Perdi a minha manhã de domingo na delegacia e eu tenho certeza que a minha parte eu fiz”, conclui a vítima.
