Alheios aos olhares da população, muitas vezes reclusos em redutos próprios, localizados nos bairros mais afastados e pobres das cidades, milhares de seres humanos são reduzidos a estatísticas. Eles compõem o costumeiramente invisível grupo das pessoas em situação de rua. De acordo com o levantamento realizado pelo Diário do Litoral junto às prefeituras, em época de temporada, há cerca de 3.585 pessoas ‘morando’ nas ruas da Baixada Santista.
Se a estatística é indigesta, os motivos que levaram essas pessoas a escolherem a rua como lar são complexos também. Violência doméstica, desemprego, problemas familiares, drogas e álcool. As histórias que se repetem nas ruas são muitas. As prefeituras das cidades, por meio das secretarias de Assistência Social, desenvolvem atividades de acolhimento que vão, desde a prestação de serviços básicos de saúde até a reinserção ao mercado de trabalho. No entanto, o número de vagas em abrigos, por exemplo, não comporta a quantidade de pessoas em situação de rua na região.
Na Baixada Santista, Santos possui o estudo mais elaborado sobre essa população. De acordo com o censo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em 2013, a cidade possui 597 moradores de rua. Eles geralmente se concentram na Vila Nova (16,1%) e Vila Mathias (12,9%).
Segundo a Administração, 86,6% são homens; 48,8% possuem de 31 a 49 anos e 40,8% são pardos. A maioria (72%) veio de outras cidades (32,8% são originários de São Paulo, 31,4% do interior do estado, 19,7% dos demais municípios da Baixada Santista e 16,2% de outros estados ou países), 84% se declararam usuários de drogas e 64,9% consomem álcool.
Itanhaém registrou, apenas neste ano, 152 atendimento à população de rua, sendo que 85% deles são homens. Destes, 75% dos casos referem-se à faixa etária adulta, de 31 a 45 anos (considerada economicamente ativa), o equivalente a 35% dos casos; na sequência, praticamente em um empate quantitativo, estão as faixas etárias: 46 a 60 anos e 18 a 30 anos.
Já Cubatão possui 33 pessoas em situação de rua. Dessas, 30 são homens e três são mulheres. Todas são acompanhadas por equipe multidisciplinar. A contagem é resultado do Projeto Abordagem Social, que diariamente faz buscas em toda cidade por possíveis moradores de rua.
Bertioga informou que 1.213 pessoas passaram pelo Albergue Municipal em 2015, sendo 1.123 homens e 90 mulheres, a maioria de outros municípios. Dessas, 390 retornaram para suas cidades, 13 foram encaminhadas para clínicas de recuperação e 59 foram incluídas socialmente. Em 2016, já foram acolhidos 134 indivíduos, sendo que 82 retornaram para sua cidade de origem.
Praia Grande registra em média 300 pessoas em situação de rua. A cidade conta com o serviço de Busca Ativa, que percorre a Cidade para conversar com os moradores que aceitem ajuda.
De acordo com a Prefeitura, Guarujá tem cerca de 1.100 pessoas em situação de rua no período de alta temporada. Desses, 200 pessoas possuem família na cidade e 700 são de regiões fora da Baixada Santista.
São Vicente não possui um número exato de moradores de rua na cidade, mas informou que mensalmente são atendidas em média 180 pessoas nos equipamentos sociais.
A cidade de Mongaguá alegou que não é possível mensurar a população em situação de rua, haja vista que em época de temporada esse grupo, que já é flutuante, sofre grandes variações numéricas. Até o fechamento desta reportagem, Peruíbe não havia retornado os questionamentos.
Centros de apoio
As secretarias de Assistência Social das cidades da Baixada Santista possuem órgãos específicos para lidar com essa população.
Santos possui equipes de abordagem de rua e o Centro de Atendimento à População de Rua (Centro POP), que funcionam como a porta de entrada da população em situação de rua nos serviços assistenciais do município, dentro do Sistema Único de Assistência Social. Na cidade há quatro abrigos e 204 vagas de acolhimento. Os moradores de rua acolhidos no sistema que desejam a reinserção no mercado de trabalho são encaminhados, após atendimento, para cursos no Salão Autoestima e para os cursos de capacitação oferecidos pela Vila Criativa e o Fênix.
A cidade de Itanhaém desenvolve serviço de acompanhamento através do Centro POP, além do serviço de Acolhimento Institucional destinado à pessoas com vínculos familiares rompidos ou fragilizados, a fim de garantir proteção integral.
Cubatão esclarece que o Centro POP recebe a pessoa em situação de rua, onde são oferecidos serviços de alimentação, higiene pessoal, além dos devidos encaminhamentos, como retirada de documentos e exames de saúde. Em alguns casos, a cidade reencaminha a pessoa para a sua cidade de origem, fornecendo a passagem.
Cubatão também conta com o apoio da Casa de Emaus que atualmente abriga dez pessoas em situação de rua. Sobre o retorno ao mercado de trabalho, a cidade possui, dentro do Centro POP, o Plano de Superação, com o intuito de acompanhar o desenvolvimento das pessoas atendidas para possível encaminhamento ao mercado de trabalho através do PAT ou empresas parceiras.
Bertioga oferece serviço de acolhimento pelo albergue municipal, que atende por um período de três a cinco dias os indivíduos que utilizam a rua como espaço de moradia.
Praia Grande, além da Casa de Estar, conta com o Centro POP que presta serviços voltados às melhorias de condição de vida da população de rua.
Guarujá também possui um Centro POP e albergue. Em uma força tarefa realizada entre 25 de dezembro de 2015 e 25 de janeiro de 2016, a Prefeitura efetuou 78 recâmbios, redirecionando as pessoas para suas cidades de origem.
São Vicente possui Centro POP e Plano de Acompanhamento Individual. Quando o morador não é munícipe de São Vicente, é verificada sua procedência e efetuado contato com familiares. A Prefeitura esclarece que, no entanto, a ação é infrutífera, pois muitas pessoas se recusam a retornar.
Embora não possua abrigo disponíveis, Mongaguá faz, por intermédio da Diretoria da Assistência Social (DAS), abordagens sociais com o foco em ouvir, orientar e encaminhar os moradores em situação de rua. Peruíbe não retornou os questionamentos da reportagem.
A voz das ruas
A reportagem do Diário do Litoral ouviu dezenas de histórias nas ruas da Baixada Santista. Embora estudos realizados pelas prefeituras apontem o uso de drogas e álcool como os principais motivos que levam as pessoas para a situação de rua, muitas outras histórias foram narradas.
“Passei muitos anos apanhando do meu ex-marido. Um dia não aguentei mais e como não tinha ninguém aqui, acabei indo para a rua. Isso aconteceu em 1996 e até hoje estou na rua”, Ivone*, 64 anos.
“Sofri um acidente de trabalho ano passado, que me deixou incapacitado. Eu não era registrado e fiquei sem nenhum apoio. Perdi tudo o que tinha e agora vivo nas ruas”, Fernando*, 43 anos.
“Vim do interior de São Paulo em busca de oportunidade de emprego. Não deu certo e decidi procurar por mais algum tempo. Tudo deu errado desde então. Perdi as poucas coisas que tinha e hoje preciso ficar na rua, pois não tenho condições de estar em outro lugar”, Simone*, 33 anos.
“Parte da minha família morreu em um acidente em 2006. No mesmo mês, meu pai, policial militar, foi assassinado. Pouco tempo depois fui responsável por um acidente que deixou muitos feridos. Não aguentei e surtei. Abri mão de tudo e vim morar na rua”, Edson*, 52 anos.
*Os nomes foram ocultados para preservar as histórias narradas
