Em uma sala do Fundo Social de Solidariedade, com um louvor em baixo volume, o prefeito Luis Cláudio Bili (PR) atendeu a Reportagem. No próximo dia 31, ele deixará a Prefeitura de São Vicente, após mandato de quatro anos. Ele ainda não definiu o seu futuro político e deve descansar por um mês.
Ao Diário do Litoral reconheceu os erros de sua administração e pediu desculpas à população. Desejou sorte ao sucessor Pedro Gouvêa (PMDB) e disse que governar a cidade é “ir do luxo ao lixo em frações de segundos”.
Diário do Litoral – Qual a avaliação que o senhor faz da sua gestão? Quando assumiu tinha noção de que ela terminaria desta forma?
Bili – Não imaginava que seriam quatro anos difíceis. Tivemos, nos dois últimos anos, muita dificuldade. De abril de 2015 até a presente data os municípios vêm sofrendo bastante. Eu não esperava que seriam os piores quatro anos da história econômica do país e os piores quatro anos de crise não só econômica como moral. Há um mau humor generalizado. O cidadão está mal humorado. A sociedade sofre com a crise e também quem detém mandato, principalmente no Executivo.
Diário do Litoral – Qual o destaque positivo e o negativo do seu mandato?
Bili – O positivo, pasmem os leitores, é que nós fizemos muitas unidades habitacionais e asfaltamos demais. Não teve um período em que os servidores tiveram mais conquistas na história da cidade. Mas, infelizmente, não conseguimos publicizar porque ficamos com aquela imagem do entulho, do lixo, dos buracos nas ruas e dos salários atrasados. Os aspectos negativos tomaram mais destaque do que o positivo.
Diário do Litoral – A falta de zeladoria foi um dos pontos mais negativos do seu governo. Tendo em vista a crise econômica, por que não priorizou essa área, por exemplo?
Bili – Quando o cobertor é curto tudo se prioriza. O Governo Federal se dedicou muito na Câmara e no Senado para aprovar a contenção de gastos por 20 anos. Se pudéssemos fazer uma analogia inversa, se tivéssemos feito essa contenção de gastos há 20 anos, não tenho dúvida que o País não estaria nessa situação. A sociedade não quer saber, ela quer ser assistida, e tem razão, nos princípios básicos. Nós temos, por exemplo, em 484 anos de existência o Crei como hospital. Parece que todas as maledicências foi eu que gerei. Parece que fui o culpado de tudo.
Diário do Litoral – Poderia ter priorizado a área social?
Bili – Há um equívoco em aumentar o custeio social sem ter condições de pagar. Quando o Estado cresce a sociedade diminui. Essas 80 creches têm a sua importância social, mas nós atenderíamos a sociedade com 50. Mas perguntam: por que você não reduziu? Porque não tenho como indenizar. Jogaram para a torcida num momento de reeleição. Reeleição no nosso País é muito caro. As histórias e essas mazelas que estamos diariamente assistindo, tenha certeza que boa parte delas foi por conta dos governantes terem projetado as reeleições e os apadrinhados políticos. Acaba a sociedade pagando essa conta.
Diário do Litoral – Qual a situação da dívida atual de São Vicente?
Bili – Não alterou muito o valor da dívida de quando eu peguei, até diminuiu um pouco. Assumimos, a curto prazo, restos a pagar de R$ 220 milhões. Está perto disso, algo em torno de R$ 190 milhões. A dívida consolidada diminuiu um pouco também por conta da Codesavi. Conseguimos gerar uma ação no nosso governo de PIS, Cofins e Pasep, e eliminamos perto de R$ 100 milhões de uma dívida histórica que a Codesavi tinha com a Cavo e que prescreveu. A Codesavi tinha perto de R$ 450 milhões em dívida. Hoje é perto de 200 milhões. Assumimos a Prefeitura com dívida consolidada perto de R$ 1 bilhão e deve ficar perto de R$ 800 milhões. O próximo prefeito vai pegar menos dívida, com dívida consolidada ainda grande, mas um pouco menor do que peguei.
Diário do Litoral – O senhor é considerado pela população o pior prefeito da história de São Vicente. Na última sessão da Câmara, vereadores que compuseram a sua base e foram seus aliados também disseram que a sua gestão foi muito ruim. O senhor concorda com essa afirmação?
Bili – Eu não aprovo o meu governo. Não estou nada feliz com a situação. Agora tem que fazer uma reflexão fria de qual foi o legado que recebi. O que realmente estava funcionando em São Vicente? A política do pão e circo ou a do põe para debaixo do tapete as coisas? Ninguém encarou essa dívida que encarei na maior crise econômica, moral e ética da história do País. São poucos que sobrevivem. Também tive dificuldade com setores da imprensa que sempre apimentaram mais as matérias de São Vicente. A cidade estava em uma situação social e econômica muito ruim.
Diário do Litoral – O senhor iniciou o mandato com muitos aliados. Termina com os mesmos?
Bili – Rei posto rei morto. Nós aprendemos que construir amizade – não coleguismo – durante uma vida quase não enche a palma da mão. Os amigos de hoje são inimigos amanhã. Os inimigos de hoje são amigos amanhã. Não concordo com o comportamento de alguns políticos e de ‘pseudos’ aliados, mas entendo a dinâmica da vida pública.
Diário do Litoral – Se tivesse a oportunidade de voltar no tempo faria diferente?
Bili – Se eu tivesse bola de cristal faria diferente. Apesar de ter sido muito amargo esse desafio valeu a experiência. Faria diferente, mas talvez não estivesse vivo. Teria que cortar muita coisa. Tinha que ser desde o primeiro dia. Seria muito difícil.
Diário do Litoral – O senhor pretende voltar ao cenário político? Quais os planos após o dia 31 de dezembro?
Bili – Tenho convites e estou avaliando. O primeiro mês quero descansar um pouco. Sou um vencedor, apesar desses quatro anos terem sido muito negativos. Nunca perdi uma eleição. Tive o desapego de não concorrer e de não querer pôr os problemas debaixo do tapete. Das seis eleições que participei não perdi nenhuma. Não sei qual será o meu futuro político. Não consigo precisar se concorro uma nova eleição. Esses quatro anos foram os piores dos 24 anos
Diário do Litoral – O que é governar São Vicente?
Bili – É um desafio constante. Você vai do luxo ao lixo em frações de segundos. Você encara o contraditório a todo instante. Tudo é prioridade em São Vicente.
Diário do Litoral – Qual mensagem o senhor deixa à população?
Bili – Peço perdão. Desculpa por não ter sido o que gostaria de ser. De não deixar funcionando as repartições públicas como um todo. Moro aqui e a minha família também – somos em oito irmãos. A gente vive o dia a dia da cidade e não está feliz. Eu não aprovo o meu governo por vários fatores. Desejo sorte ao próximo prefeito e ao cidadão vicentino, que também sou.