Cadeia Velha de Santos não será mais Centro Cultural

Governo do Estado volta atrás em decisão e espaço será compartilhado entre Agência Metropolitana da Baixada Santista e Projeto Guri; uso para artistas locais ainda está em análise

“Eu me lembro dos anos da ditadura, na virada da década de 80, em que cada grupo teatral tinha um espaço aqui na Cadeia. Aqui nosso grupo estudou e concebeu um espetáculo que foi parcialmente censurado pela polícia. Desde aqueles anos de efervescência cultural a Cadeia sempre foi um espaço de fomento ao pensamento crítico, ocupado pelos artistas locais”.

A fala do atual diretor de gestão cultural de Praia Grande, Renato Paes, refere-se aos tempos áureos da Cadeia Velha de Santos, imóvel centenário e tradicional abrigo de artes integradas e que passará a funcionar, dentro de algumas semanas, como sede administrativa da Agência Metropolitana da Baixada Santista (Agem). A informação foi transmitida pelo atual secretário de Cultura do Estado, José Roberto Sadek, em coletiva realizada ontem.

A mudança no destino da Cadeia ocorre exatamente um ano após o anúncio oficial da Secretaria de Cultura do Estado de que o imóvel seria um espaço para incentivo à produção cultural, com atividades de formação nos mais diversos formatos e linguagens. A decisão havia sido anunciada após duas audiências públicas e diversos ­protestos da classe ­artística.

De acordo com o novo anúncio do Estado, a prioridade é otimizar custos e usar o prédio para evitar deterioração.

“Todas as oficinas do interior funcionarão em parceria com as cidades. Aqui em Santos, a Prefeitura sinalizou que não havia interesse em assumir o imóvel, por conta de restrições orçamentárias, e conseguimos essa parceria com a Agem, que tem um eixo cultural forte e quer crescer esse eixo”, afirmou Sadek.

De acordo com ele, a sede administrativa da Agem ocupará o primeiro andar da Cadeia, enquanto o polo local do Projeto Guri, programa gratuito de formação musical, será instalado no térreo. Uma sala será de múltiplo uso e outra será ­dedicada a ­exposições.

Questionado, Sadek não deu garantia de que os grupos artísticos locais poderão usar o prédio. “Estamos analisando a melhor forma de uso. O que é possível afirmar categoricamente é que a Cadeia Velha de Santos não será mais um Centro Cultural”, finalizou­.

Aluguel

De acordo com subsecretário de Estado de Assuntos Metropolitanos, Edmur Mesquita, o aluguel do atual espaço onde a Agem está instalada gira em torno de R$ 20 mil.

“Se colocarmos na ponta do lápis são R$ 250 mil anuais que estão sendo gastos com aluguel. Vamos usar esse valor para cuidar da manutenção desse espaço que é referência das mais importantes para a cultura de Santos e região”, apontou.

Mesquita afirmou ainda que a Agem buscará parceria com o setor privado para auxiliar no custeio do espaço.

Oficinas culturais

Ainda de acordo com o secretário, as cidades-sede das oficinas, como Santos, receberão os recursos do Governo do Estado para fazer as atividades de ­oficinas.

“As demais cidades vão solicitar diretamente para a organização social as oficinas que quiserem e a O.S. abastecerá com a atividade solicitada no local determinado. O projeto oficina não parou, o que está parando é a administração predial. Estamos saindo do ramo imobiliário, mas não estamos deixando as ­atividades de formação­”.

Artistas repudiam mudança

O anúncio foi alvo de duras críticas da classe artística de Santos, que se mobilizou desde o fechamento da Cadeia Velha para que o espaço não perdesse a vocação artística. 

“É frustrante e assustador. Estão mudando o caráter da Cadeia e interrompendo a vida cultural pulsante que funcionava durante o dia, a noite e os finais de semana aqui”, afirma o escritor Viegas Amoreira.

“Como fica a geração que já deixou de compartilhar desse espaço nesses cinco anos que o imóvel está fechado? Como ficará quem vier depois? Estamos perdendo um espaço vital. Vemos essa situação com muito desconforto e pesar”, destacou Junior Brassalotti.