Casal abandona rotina em Santos e parte em viagem com o filho

Objetivo é estimular o contato da criança com o ambiente que o cerca e permitir vivências culturais desde os primeiros meses de vida

Com as mãos gorduchas, Valentim colhe e analisa algumas folhas que caíram da árvore após um forte temporal de verão. Cada descoberta do menino de um ano vem acompanhada de um sorriso largo, que deixa a mostra seus oito dentinhos que nasceram há pouco tempo.  Com o objetivo de estimular o contato do filho com o ambiente que o cerca e permitir vivências culturais desde os primeiros meses de vida da criança, os cineastas Anderson Lima e Samara Monteiro há dois meses abandonaram a rotina em Santos e partiram com o menino em uma viagem de descobertas intitulada ‘Caminhos do Tim Tim’.

A ideia do roteiro surgiu após a necessidade da família reequilibrar a vida (na ocasião, ambos trabalhavam em um programa para a TV Pública Federal que foi extinto com o impeachment de Dilma Rousseff). E foi pensando que o mundo era grande demais para que o filho crescesse fechado entre quatro paredes de uma residência que a família decidiu vender parte das coisas, enviar alguns móveis para a casa de parentes e usar o dinheiro que gastariam com aluguéis para viajar pelo Brasil, se hospedando em cada destino na casa de algum parente ou amigo.

“Quando ficamos sem ocupação formal pensamos: vamos procurar um emprego e nos recolocar no mercado de trabalho; vamos viver de bicos e continuar nessa mesma casa ou vamos tentar mudar para algum lugar que seja inspirador  e onde a gente possa viver em um contato maior com a natureza? Escolhemos nos aventurar pela terceira possibilidade”, aponta Anderson.

Vivências

De acordo com o casal, estar na casa de parentes ou amigos é um processo de aprendizado. “Muitas vezes quando chegamos à casa das pessoas elas se preocupam em nos levar para conhecer os pontos turísticos. Mas nossa maior vivência é com elas. Queremos partilhar dos costumes, dos gostos e da visão de mundo que aquela pessoa tem para nos passar. Isso é um enriquecimento cultural para nós”.

A riqueza cultural de cada paisagem é vivenciada ao extremo pelo pequeno Tim Tim, uma vez que por si só o menino está em fase de descobrir o mundo. Da passagem onde a criança acompanhou a formiga no chão, tentando prendê-la no espaço de suas mãos até a ocasião em que ele saiu engatinhando por uma rua de terra e usou o gramado como calçada, simplesmente porque mudava de cor. “Isso traz para o Valentim uma riqueza que a gente acredita que não é só energética, mas também consciente. É algo que está alimentando a alma dele”, aponta.

Em uma das viagens, o casal conta que a todo o momento a mãe de uma criança de três anos tinha que procurá-la pela redondeza, pois a menina gostava de entrar nos quintais de vizinhos e comer as frutas que estavam debaixo das árvores. “A gente não estava lendo um gibi. Nós estávamos lá, interagindo com aquela família e aquele contexto. A vida caipira é real, é vivencial e Valentim partilhou disso”, afirma.

Ao longo dos 1.469 km percorridos, Tim Tim já dançou forró na fogueira em Alto Paraíso, saiu em excursão para uma cachoeira, plantou árvores no cerrado brasileiro, tocou violão em Goiás, acompanhou o trabalho dos vaqueiros na Chapada dos Veadeiros e experimentou uma diversidade de frutas, colhidas diretamente das plantações por diversos lugares por onde passou.

A proposta de Samara e Anderson é que Valentim não seja escolarizado no sistema formal – a não ser que ele queira. A ideia do casal parte do princípio de que a interação com outras crianças e as vivências pelo Brasil são mais importantes e mais enriquecedoras do que fórmulas definidas. “O mundo já é por si só uma escola e o conhecimento pode ser acumulado por meio de todas as experiências humanas que você tem com outros humanos que você cruza no meio do caminho”, afirma Anderson.

Para Samara, a vivência é primordial para a formação da personalidade do menino, mesmo que ele não se recorde das viagens quando crescer. “Eu estava aflita pensando em como ele ficaria na cidade grande depois de conhecer o interior,pois lá ele se desenvolveu muito por onde passou, conquistando uma liberdade que nunca tinha vivido. Hoje ele faz na cidade organizada a roça dele. Isso é algo que não vai embora”, pondera Samara.

A proposta é que a viagem de Valentim passe por pelo menos mais cinco cidades. Após essa fase, a família deverá fixar residência por um período de tempo no local em que Tim Tim mais se adaptou.

“Mas também temos a ideia de que será o término da primeira temporada e temos a certeza de que muitas outras virão, pois encontramos um propósito. Lembro que quando saímos da nossa casa e fomos para a rodoviária eu me virei para Samara e perguntei se a partir daquele momento poderíamos nos considerar sem-tetos. Sorrindo, ela respondeu: ‘Agora nossa casa é maior’. A casa de Valentim é o mundo todo: já vai de Cananéia até Alto Paraíso de Goiás”, finaliza Anderson.