Colégio de Santos entra na mira do Ministério Público-SP

Ministério Público deu até o final deste mês para Estado se manifestar

Escola Estadual Canadá, uma das mais tradicionais de Santos, localizada no bairro do Boqueirão

Escola Estadual Canadá, uma das mais tradicionais de Santos, localizada no bairro do Boqueirão | Reprodução/Facebook

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), por intermédio do promotor de Justiça Carlos Cabral Cabrera, abriu inquérito civil para apurar responsabilidades da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo sobre a má conservação do prédio da Escola Estadual Canadá, uma das mais tradicionais de Santos, localizada na rua Mato Grosso, 163 – no Boqueirão.

O Governo do Estado tem até o final de janeiro para apontar se há previsão de reforma/restauro da unidade de ensino. Em caso positivo, o MP-SP pede que indique o prazo previsto para execução. Caso contrário, o inquérito poderá se tornar ação civil pública.

A iniciativa foi por conta de notícias de fato e, posteriormente, por intermédio da advogada Katia da Silva Mendes, mãe de duas alunas, que salientou a situação precária do edifício principal da escola santista, bem tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa).

O promotor também encaminhou ofício à Assessoria Especial do Gabinete do prefeito Rogério Santos, com cópia dos autos, solicitando que o Condepasa, por meio do seu órgão técnico de apoio, promova vistoria no imóvel, com oportuna remessa de relatório das condições do bem e medidas necessárias para reforma, restauro e conservação.

As notícias de fato foram instruídas com fotografias da parte exterior do prédio, indicando pintura desgastada, infiltrações, fitopatologias (plantas brotando indevidamente da estrutura), gradil enferrujado e entortado, entre outras, dificultando a permanência de estudantes de forma segura e salubre.

Parte exterior do prédio, indicando pintura desgastada, infiltrações, fitopatologias (plantas brotando indevidamente da estrutura)Divulgação

Acionada

A Diretoria de Ensino – Região Santos chegou a ser acionada e, por intermédio do Núcleo de Obras e Manutenção Escolar – NOMiSAN, juntamente com informações da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, não encaminhou ao MP-SP nenhuma informação sobre o início das intervenções de infraestrutura no prédio.

Para abrir o inquérito, o promotor considerou que a Constituição Federal impõe ao Poder Público, com a colaboração da comunidade, a promoção e proteção do patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.

Também que a responsabilidade civil por dano ao meio ambiente cultural é, por definição legal, objetiva e solidária, sendo o Estado de São Paulo proprietário do bem e responsável pela manutenção, restauro e conservação.

Decreto

Por fim, citou o Decreto-Lei no 25, de 30 de novembro de 1937, que prevê aos proprietários de imóveis protegidos, nesse caso o Governo Estadual, a obrigação de preservá-los, responsabilizando-se por danos que venham a atingi-los por atos próprios ou de terceiros.

E ainda o artigo 14, § 1o, da Lei Federal no 6.938, de 31 de agosto de 1981 (LPNMA), que prevê expressamente que a responsabilidade civil por danos causados ao meio ambiente.

Criado em 1934, o Colégio Estadual Canadá chegou à década de 1960 como um dos mais tradicionais de Santos e um dos maiores do Estado. Nessa época, Santos era uma cidade de forte movimento sindical, com grande expressão política de partidos e movimentos de esquerda. Por isso, foi muito visado pelos articuladores do golpe de 1964, que abriram, a partir de então, uma escalada de terror sobre a cidade.

Entre os lugares que passaram a sofrer com a ação repressiva da ditadura esteve o Colégio Canadá. As atividades políticas realizadas na instituição, sobretudo aquelas relacionadas ao movimento estudantil e organizadas pelos alunos com o Grêmio Estudantil Vicente de Carvalho, foram monitoradas de perto pela repressão durante todo o período, conforme atestam dossiês produzidos pelo Deops/SP.

Ativo também culturalmente, o Grêmio chegou a ter uma das peças de seu grupo de teatro censurada. Em 2007, o edifício principal do colégio foi tombado.

Estado

A Secretaria da Educação do Estado de SP informa que está em fase de aprovação um orçamento para execução de melhorias na unidade, incluindo a reforma da quadra de esportes, da cozinha, cobertura, manutenção de assoalhos, entre outros serviços.

Por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), a escola recebeu R$ 60 mil, que serão destinados para serviços de manutenção, limpeza de calha, dedetização, melhorias nos banheiros e outros reparos.